quarta-feira, 4 de junho de 2014

O “Parto” é a morte e o ápice da Jennifer Lo-Fi











A banda paulistana Jennifer Lo-Fi acabou de lançar um novo EP com três músicas não tão novas assim – as canções foram escritas há cerca de três anos e tocadas pela banda “até o cu fazer bico”, como diz o baterista Luccas Villela, mas demoraram a ser gravadas e lançadas. O anúncio de que o EP seria lançado foi feito no meio de 2013, quando a banda também anunciou que entraria em hiato porque a vocalista Sabine Holler foi morar em Berlim. Mas as músicas só saíram agora, quase um ano depois. E é justamente por causa da demora que o EP foi batizado de “Parto”. E, antes que você me pergunte, infelizmente eles ainda estão em hiato e ninguém sabe se a banda vai voltar ou não um dia. Mas eu espero que sim :)

“Decidimos fazer o EP no nosso tempo, sem interferência de horas de estúdio e os caralho. Gravamos tudo em casa de forma ‘amadora’, com a ajuda de vários amigos. As músicas são da maneira que deveriam ser”, diz Luccas. Concordo com ele. Para mim, esse EP é o ápice da Jennifer Lo-Fi. A banda tem uma identidade própria muito forte e achou um som que é a sua cara, extremamente característico. Acompanho o grupo desde o começo, estava no primeiro show deles, inclusive. E posso afirmar sem dúvida alguma que foi uma grande evolução de 2008 pra cá. A começar pela Sabine, líder da banda, responsável pelas letras e vocais (e também algumas guitarras e outros instrumentos). Para mim, este EP é a melhor fase dela. Os vocais cresceram e evoluíram muito. A voz está mais linda e gostosa de ouvir do que nunca. Ela sempre foi boa, mas agora o conteúdo das letras e as rimas impressionam ainda mais, assim como a interpretação, os diferentes tons que ela alcança e os backing vocals feitos por ela mesma, que tecem uma manta de vozes perfeita – sem falar nos gritos, que são ótimos e ainda estão lá. Rock’n’roll!

A parte instrumental também evoluiu. Odeio escrever o clichê dos clichês e dizer que a banda cresceu, mas nesse caso é inevitável – me desculpem. Em “Parto”, a Jennifer Lo-Fi consolida seu estilo, suas características mais marcantes aparecem junto a algumas tentativas bem sucedidas de arriscar coisas diferentes, e as letras agora vêm todas em português, mas continuam com a mesma essência de sempre – só que cada vez melhores. Eles acharam o som que era a cara deles e conseguiram aperfeiçoá-lo sem deixar de lado sua identidade. Perguntei para o Luccas como tinha sido essa mudança total para o Português e se isso tinha de alguma forma afetado a autenticidade da banda. Ele respondeu assim: “Foda-se o inglês. Somos do Brasil e procuramos não soar como brasileiros, tentando fazer um som ‘internacional’”.

Agora, vamos às músicas. Cada uma delas tem pequenos tesouros que valem a pena ser descobertos. E, a cada audição, mais detalhes bonitos aparecem. Recomendo que você escute o EP inteiro umas cinco vezes. E pode até ser cinco vezes seguidas, porque é curtinho e bom demais e certamente não vai enjoar.
É uma pena que não se saiba o futuro da banda depois desse EP. Espero que ele não seja o último registro deles, que estavam em sua melhor forma.

FAIXA A FAIXA
O “Parto” começa com “Acardia”, que tem um riff bem sujo e pesado no começo, meio rocão, até meio stoner. Mas aí começa o som lo-fi característico deles: entra a bateria quebrada do Luccas, que nunca é óbvia (e isso é o que eu mais adoro nele tocando) e a Sabine cantando uma declaração de amor tão singela que você demora um tempo até entender do que ela está falando. A letra não é nada melosa, mas fala dos sintomas que o amor causa. A música tem um fim meio arrastado, só que aí, nos últimos segundos, entra uma guitarrinha maravilhosa, o rocão volta, você acha que a música vai crescer de novo...mas acaba. Pegadinha do Mallandro! Deixa a gente querendo ouvir mais.

Em seguida, o EP continua com uma música de quase dez minutos e de nome esquisito: “Frank.Bruxelas.?????”. Os dez minutos não soam arrastados porque a Jennifer Lo-Fi é uma banda que sabe criar climas, transformar uma música em muitas, quebram a estrutura e constroem algo novo. Cada parte é um universo, uma sensação diferente, um som diferente. E é exatamente isso o que eles fazem aqui. A coisa vai fluindo numa fruição incrível e você nem percebe passar. Eles fazem isso em todas as canções do EP, na verdade. E é brilhante. Mas aqui, com mais tempo, fica ainda mais evidente. Essa música também é a mais parecida com o trabalho do disco “Noia”, lançado por eles em 2011.
“Frank.Bruxelas.?????” tem um samba no meio (!), com apito, bandeira e guitarrinha suingada. Depois, acaba com um clima bem blues, baixo pesado, vocal sensual e sussurrado. Aí volta o clima mais soturno e o rock e a canção fecha com um coro contagiante.

O EP termina com a canção “Épica”, que realmente soa mesmo épica, cheia de guitarras, riffs e solos. É uma coisa meio Led Zeppelin. No meio do caminho, a música descamba pra uma batucada doida que parece tropicália ou afrobeat, mas as guitarras setentistas continuam mais altas que tudo, o rock volta, e depois morre de novo. O final parece música indiana ou marroquina, misteriosa, cheia de flautas e batuques ritmados. Gosto muito dessas rupturas e de como a Jennifer Lo-Fi é totalmente imprevisível – e por sempre surpreenderem de forma positiva.

ESCUTE "DJÁ"!



Dá para ouvir o “Parto” na íntegra no Bandcamp da banda. Na mesma página, também é possível fazer o download de todas as músicas de graça. O EP foi gravado e produzido pela própria banda e pelo amigo Diogo de Nazaré; e masterizado nos EUA por Chris Hanzsek, que já trabalhou com o Melvins e o Soundgarden. A arte da capa, com os gatinhos coloridos psicodélicos, foi feita pela Jéssica Fulganio – que é baterista da banda Ema Stoned, outro grupo da Sabine, formado só por garotas. Não deixe de ouvir!

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