quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Artistas do concreto

Para quem gosta de arte (e, principalmente, de poesia), os artistas concretistas devem ser velhos conhecidos. Mas as artistas sobre quem eu vou escrever aqui são artistas "do concreto". Duas mulheres que enfeitam o cinza de várias cidades com suas pinturas: Sinhá e Magrela. Se você mora na capital paulista, provavelmente já viu o trabalho delas andando por aí. Como esses:

Magrela - "Lampiônicos" - Quebrada Cultural, Rio Pequeno, São Paulo (2013)

Sinhá - Zona Leste de São Paulo

Apesar de a maioria das pinturas delas estarem em muros de São Paulo, Sinhá, que é potiguar, também tem vários trabalhos em Natal, mas mora em São Paulo há mais de 6 anos; e Magrela viajou o mundo pintando em Londres, Lisboa, Porto e Sintra. Elas também pintam quadros e, nas telas, por vezes fazem trabalhos com diferentes materiais, o que fica bem interessante.

Conheci a Magrela e a Sinhá no começo de 2011, conversei bastante com elas em alguns encontros na época e, desde então, venho acompanho o trabalho das duas pelas ruas e na internet. Como a admiração por elas só cresce, decidi resgatar as entrevistas de três anos atrás e apresentar estas artistas fantásticas para os leitores do LADO Bá.

Colorindo a cidade cinza
Magrela é paulistana e retrata mulheres nuas, com expressões de sofrimento e por vezes amarradas, acorrentadas, presas, costuradas e feridas. A cor predominante é o marrom e os traços são mais retos e sóbrios. Ela pinta na rua há cerca de 6 anos e aprendeu a lidar com o desapego. "Pintar na rua é uma responsabilidade. Depois que eu termino um trabalho, é do mundo, não é mais meu. Podem fazer o que quiserem com ele", afirma. 


Magrela - "Sala de Jantar" - Lisboa, Portugal (2013)

De fato, muitos grafites em São Paulo são logo "apagados", cobertos de tinta cinza pela prefeitura. A 'guerra" entre artistas que pintam e funcionários da prefeitura que cobrem os grafites e toda a discussão sobre o que é arte de rua foi retratada no documentário "Cidade Cinza", que você tem que assistir, porque é incrível e super bem humorado (de arrancar risadas da plateia, mesmo, além de fazer a gente pensar).

A Sinhá tem um trabalho com temática parecida, que também traz figuras femininas amarradas, mutiladas, sofridas. Mas com cores mais alegres, muito roxo e traços arredondados. "Gosto de desconstrução, de tirar pernas e braços; de entortar a mulher. Nada muito certinho", diz Sinhá.

Ela também lida de forma tranquila com o desapego em relação a seus trabalhos. "O lance da arte de rua é não se apegar. A arte só é sua enquanto você está fazendo. Enquanto eu faço, é meu, mas depois é do mundo. Mas tenho um retorno incrível das pessoas. Uma vez veio um carteiro e me disse ‘olha, eu acompanho seu trabalho, eu sei que tem pintura sua na rua tal, tal e tal", conta.


Sinhá - "Em si amesas" - Vila Romana, São Paulo (2013)

Grafite de menininha
Magrela diz que infelizmente ainda existe preconceito no grafite e que a maioria das pessoas se espantava quando descobria que os trabalhos dela eram de autoria feminina. "No começo eu nem assinava nada, não queria que as pessoas soubessem que era uma mulher que tinha pintado aquilo. Eu não queria que falassem 'ah, é trabalho de menininha, grafite de menininha'. Ainda rola muito machismo".

"Comunicar com a sua arte é um papel importante de pintar na rua. Fiz muitas mulheres amarradas, sem braço, meio presas, para passar essa mensagem anti-machismo também", afirma Sinhá.

Parcerias
Em 2013, Sinhá e Magrela tiveram suas pinturas expostas no MuBE, na II Bienal Internacional de Grafite (acho chique). Elas também costumam pintar juntas e fizeram alguns trabalhos interativos, com as pinturas e estilos de cada uma "conversando" entre si no grafite.




Rua da Consolação, esquina com a Maria Antônia, centro de São Paulo

Outra obra bem legal das duas é a pintura da fachada dos prédios do Cingapura - Piqueri, na Marginal Tietê, na Zona Norte de São Paulo. São pinturas enormes, gigantescas, cobrindo toda a altura dos prédios. São 4 torres, sendo que em cada uma há uma intervenção de um artista. Além de Magrela e Sinhá, os artistas Sola e Raul Zito fizeram os outros dois prédios.


A Sinhá também escreve poesias e, em 2012, lançou um livro lindo que se chama "Devolva meu lado de dentro" (eu acho a capa incrível - sim, é ela mesma e sim, são corações de galinha de verdade). "Eu gosto de dizer que flerto com as palavras. Gosto de escrever sobre a relação entre as pessoas. Pode não ter acontecido comigo, pode ser uma situação que observei de fora entre duas pessoas desconhecidas", diz. 

Para mim, as poesias de Sinhá são curtinhas, delicadas e afiadas ao mesmo tempo, lindas e inteligentes, mas também um pouco angustiantes. Fazem você se sentir como se tivesse acabado de brigar com o namorado ou de lembrar de alguém muito querido que já se foi. É uma nostalgia de amor. Vou listar aqui alguns dos trechos que mais gosto:

"A chuva é o céu com saudades do chão"

"No telefone curto / o amor mudo"

"Quero secar você / do nosso suor / no meu varal"

"Fiquei de cama. Peguei um amor fortíssimo"

"Enxaqueca. Você e esta dor que não me saem da cabeça"

Dá pra comprar o livro fazendo o pedido por e-mail para evelineg@gmail.com. Custa baratinho, chega rapidinho pelo correio e vale muito a pena. A orelha do livro foi escrita pelo rapper Criolo, que é amigo de Sinhá; e uma das poesias dela, "Olhos da Cara", foi musicada pelo também amigo Kiki Dinucci:


Uma outra composição de Sinhá, em parceria com o Criolo, está no último disco de Gui Amabis (produtor conhecido de discos e trilhas sonoras de filmes):


É a voz dela declamando a poesia no comecinho da música. E, ainda em 2014, Sinhá vai lançar seu segundo livro de poesias, que irá se chamar "Na Veste Dos Peixes As Palavras De Ontem". Promete!

Nenhum comentário:

Postar um comentário