sexta-feira, 3 de maio de 2013

E, por falar em festival de música...

Sim, eu sei que já faz mais de um mês que aconteceu a segunda edição do Lollapalooza no Brasil, mas pensando em bons festivais realizados por aqui, decidi publicar minhas impressões sobre o evento. Até porque ele acabou se consolidando como um dos maiores e melhores festivais de música do país e tem muito a nos ensinar, apesar de ainda precisar de ajustes.


LIÇÕES DO LOLLAPALOOZA BRASIL 2013

NÃO COLOU:

1) O show do Cake
Foi decepcionante. Eu só comprei o ingresso pro dia 29 por causa deles, mas nem assim fiquei satisfeita com o que vi - e mal ouvi. O som baixo e ruim no palco Butantã, com muitos problemas técnicos, era ofuscado pela conversa alheia e pelos outros palcos facilmente e a banda, mesmo na condição de vítima, também não ajudava: os californianos mal se moviam no palco. John McCrea, o vocalista, era o mais simpático e mais falou do que cantou. Só que, apesar das brincadeiras com a plateia, o falatório cansou, deixando o show morno e arrastado. A coisa só engrenou no fim do show, quando resolveram apostar nos grandes hits como "Never There" e "Short Skirt/Long Jacket", além do famoso cover de "I Will Survive". Aí a plateia acordou. Mas já era tarde demais.

2) A lama

Choveu muito em São Paulo na véspera do festival. Resultado: o Jockey parecia um pântano lamacento, com um cheiro forte de esterco e poças imensas. Ficou difícil de andar de um palco pro outro e não tinha como sentar para descansar entre os shows.

3) A falta de banheiros

A organização prometeu que a segunda edição do festival teria mais banheiros para dar conta da demanda. De fato, percebi algumas cabines a mais do que me lembrava de ter visto em 2012. Mas não foi o suficiente. As filas para os banheiros eram enormes e demoradas e, com a lama e a chuva, usar banheiro químico foi um verdadeiro martírio (ainda mais para as meninas).

4) As filas, as fichas e os preços

Apesar de este ano o Lolla ter oferecido muito mais opções de alimentação, o que foi ótimo, os preços continuaram abusivos. Não acho nada justo e muito menos justificável pagar 12 reais em um cachorro-quente frio e insosso e quatro reais em um copinho de 300 ml de água, por exemplo. As filas para comprar fichas eram imensas mesmo cedo e a organização repetiu o grande erro de não permitir que as fichas fossem utilizadas em todos os dias do festival. No domingo, até permitiram a troca da ficha do dia anterior pela vigente, mas você tinha que ir até o caixa para trocar, então era obrigado a encarar a fila de qualquer forma.

5) O embaço pra entrar
Esse ano o Lolla teve menos gente do que no ano passado...de 175 mil pessoas, a lotação máxima por dia de festival caiu para 160 mil. Mesmo assim, achei a fila pra entrar muito mais comprida e demorada do que a de 2012. Desorganização, seguranças brutos e mal educados, revista mal feita e enrolada, funcionários despreparados e desinformados (que mandavam separar quem tinha meia de quem tinha inteira pra depois juntar em uma mesma fila de novo e não adiantar nada, por exemplo). Isso sem contar  o drama de quem decidiu retirar os ingressos no dia do show e teve que passar mais de duas horas (!) na fila pra conseguir pegar o maldito cartãozinho.

6) Usar banheiro químico sujo à noite, no escuro (ainda mais se você for mulher e não puder fazer xixi de pé).

7) O próprio Perry Farell ter sido barrado na tenda que era batizada com seu nome, dentro do seu festival. Mais um exemplo de equipe mal treinada e mal preparada (que certamente não fazia ideia de quem ele era nem que cara tinha).

8) Gente chata e mal educada

Boa parte do público do Lollapalooza Brasil esse ano repetia um comportamento que vem crescendo cada vez mais em shows e festivais e que é muito chato para quem realmente gosta de música e se importa com as apresentações das bandas: falar o show inteiro, em volume altíssimo, e atrapalhar quem tenta ver o palco para ficar tirando fotos de si mesmo. O problema destas pessoas é que elas não querem ESTAR em um festival como o Lolla. Elas querem MOSTRAR que estavam lá. 

9) Usar sapato

Vi muita gente no Lolla usando tênis branco (!), sapatilha, calçados bonitinhos e delicados. Com tanta lama, areia e andança, todos os sapatos foram pro beleléu. A melhor saída era usar galochas, botas resistentes ou um tênis velho. Fica a lição.


FOI LINDO:


1) O show do Kaiser Chiefs
Foi disparado o melhor do festival. Ok, não era a melhor banda, mas a entrega deles no palco ganhou. Principalmente pelo doido do vocalista, o ruivo Ricky Wilson, que correu pra lá e pra cá, conseguiu empolgar até quem não conhecia ou não gostava muito da banda, escalou grua, se jogou na plateia, rolou pelo chão, pulou, gritou, agitou, dançou e cantou muito. Uma aula de como um verdadeiro bom show de rock deve ser: animado, empolgado, enérgico, divertido.

2) A roda-gigante da Heineken Era linda! Principalmente com as luzes acesas, ao anoitecer. Pena que tinha uma fila absurda para andar...eu não me perdoaria se ficasse uma hora na fila do brinquedo e perdesse um show, então desisti.

3) As novidades desse ano. Muito mais opções de comida, incluindo alimentos vegetarianos e alimentos saudáveis) mais lojas, mais estandes, mais atrações).

4) O RevoltzSP tocando no palco Kidzapalooza (pena que foi no mesmo horário do Cake).

5) Ambulantes vendendo pipoca, cachorro-quente e churros no meio dos shows. Assim você podia ficar de plantão esperando sua banda favorita sem passar fome e sem ter de enfrentar a fila da lanchonete. Os petiscos tinham um clima gostoso de "comida de parque de diversões" e o cheirinho do churros quentinho era maravilhoso.


6) Transporte público
Fui para o Lolla de metrô todos os dias, voltei pra casa de metrô na sexta e no sábado e foi super tranquilo. Ok, cheguei cedo nos três dias e saí do Jockey antes de os shows principais terem acabado (pode me julgar), mas foi muito sossegado. O problema acontecia depois das 23h30, quando uma massa de público ia para a estação Butantã ao mesmo tempo. Parece que não aprenderam muito com o que aconteceu no ano passado. O metrô deveria ter cedido bem mais do que apenas 15 minutos extras antes de encerrar sua operação. Mesmo assim, é MUITO legal poder usar trasporte público para ir a um festival e, além do metrô, o Lolla contou com linhas de ônibus exclusivas. Ponto mais do que positivo pra organização do festival.

7) Todos os caixas e lojas do festival aceitavam cartões de crédito e débito.

8) Pontualidade impecável

Nenhum show  atrasou. Com um evento desse tamanho, chuva, trânsito e todas as complicações logísticas de uma cidade como São Paulo, é um ponto extremamente positivo.

9) Os shows acabavam cedo
Aguardo ansiosamente o dia em que as pessoas vão entender que show não é balada. No Lolla, felizmente, as últimas atrações de cada dia do festival sempre terminavam antes da meia-noite. Assim, o pessoal podia usar o transporte público para voltar pra casa e descansar repondo as energias para o dia seguinte - ou então aproveitar a noite para fazer algum outro rolê, incluindo, aí sim, alguma balada ou até os "Lolla Side Shows", em que bandas presentes no festival tocavam em casas de show pequenas e mais intimistas, com maior tempo de palco e mais proximidade com o público (outra boa sacada, que permitia que um fã da banda tivesse a opção de ver só aquele grupo, de perto, pagando menos e com maior qualidade de som).

10) Temper Trap e o pôr do sol
Só peguei o finalzinho do show deles, logo antes de escurecer, e ainda vi de longe. Mas o som estava ótimo, a plateia estava feliz, a banda estava mais contente ainda, fazendo juras de amor ao Brasil e fechando a apresentação com a maravilhosa canção "Sweet Disposition". Que beleza de encerramento! Foi emocionante.

11) Wayne Coyne e os aviões

O líder e vocalista dos Flaming Lips, Wayne Coyne, é um espetáculo à parte. Ele é completamente maluco, pinta uma unha de cada cor, usa uma jaqueta verde esmeralda brilhante com glitter e segura um bebê boneco no colo. Aí o Wayne encasquetou com os aviões que sobrevoavam o Jóquei voando baixo - que não eram poucos. Para quem mora em São Paulo, é super comum . Mas para um gringo acostumado a aeroportos afastados do centro da cidade, traumatizado por atentados terroristas e um tanto malucão, aquilo era aterrorizante.

TODA SANTA VEZ que passava uma avião ele parava o show pra comentar. Quando finalmente se acalmou, começou a brincar com a história. Dava tchauzinho pros aviões que passavam e chegou a fazer um freestyle no meio da canção "Do You Realize" que narravam o acontecido: "estamos aqui no Lollapalooza Brasil, os aviões passam, as pessoas neles nos veem aqui embaixo, vamos acenar para elas, podem ficar tranquilos porque eles não vão cair e bater em nós e...epa! Lá vem outro!".

12) A galera PIRANDO no show do Passion Pit

Nem gosto muito da banda, mas o jeito como eles conquistaram o público está de parabéns. Finalmente vi os coxinhas/hipsters deixando o carão  de lado e se acabando de dançar, pular, cantar e gritar - e no meio da lama, ainda por cima!

13) O AMOR

Vários pedidos de casamento foram feitos durante o Lollapalooza Brasil 2013! O melhor de todos, na minha opinião, foi um cara que pediu a mão da namorada enquanto o Queens of the Stone Age tocava "Make it Wichu", a maior fuck music de todos os tempos. Irrecusável...

Também teve o Beto, que pediu a mão de sua namorada Andrea enquanto o Killers tocava o hit "Mr. Brightside"; e o casal que apareceu na Globo, os cariocas Luiz e Susan. Eles se conheceram em um show do Franz Ferdinand no Rio. Anos de namoro depois, no Lolla, Luiz ajoelhou na lama do Jockey e pediu a Susan em casamento enquanto a banda tocava a música mais marcante para o casal, "Do You Want To".

14) A redenção do QOTSA

Depois de um show cheio de problemas técnicos e som ruim no SWU de 2010, o Queens of the Stone Age finalmente se redimiu com os fãs brasileiros e fez uma apresentação impecável, super alta e pesada, com som tinindo. Lindeza! Pena que o show deles foi muito curto - só uma horinha, afinal, não eram os "headliners" do dia. Só eu achei nada a ver o Black Keys tocar depois deles? Eu adoro a dupla e sei que eles não são nenhuma banda nova (o Black Keys tem mais de 10 anos de carreira e 7 bons discos lançados, muito além do hype), mas o QOTSA tinha muito mais cacife e experiência com grandes shows, ainda mais tempo de carreira e muito mais hits.

15) A Brittany Howard ARRASANDO

A vocalista e guitarrista do Alabama Shakes conquistou o posto de diva no Lolla. Tocando no menor palco (o Alternativo) e ainda por cima disputando horário com os já gigantes Franz Ferdinand, que são bastante populares no Brasil, o grupo não fez feio e não deixou nada a desejar. Mesmo sendo uma banda nova, com um só disco lançado, conseguiram arrastar uma galera pro show. Como sempre, Brittany se destacou com uma baita presença de palco, muita simpatia e uma entrega intensa no show, que destruiu seu penteado - mas conquistou de vez a plateia; o vozeirão digno das maiores cantoras negras dos EUA e a guitarrinha verde-água a tiracolo. Essa garota é incrível.

16) O showzaço do Pearl Jam

A banda mais veterana entregou uma apresentação impecável e a estrutura ajudou: bom som, telões funcionando, pontualidade e mais de duas horas e meia de show. O Pearl Jam estava afiadíssimo, tocou todos os hits e ainda fechou com um cover de The Who (com a canção Baba O'Riley). Eddie Vedder é, assim como Wayne Coyne, um espetáculo à parte. Depois de mais de 20 anos de banda ainda sustenta um belo vocal, é super simpático e humilde, conseguiu falar um português claro e ir muito além do "Obrigado, São Paulo", conversando com a plateia na nossa língua, desejando feliz Páscoa  e ainda elogiando a aprovação municipal do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Como de costume, ele também falou do Johnny, lendário guitarrista da banda punk Ramones, que faleceu em 2004. Vi shows do Pearl Jam em São Paulo em 2005 e 2011 e nos dois o Eddie também fez uma homenagem pro Johnny no final. Eles eram amigos próximos e os Ramones gostavam muito do Brasil.




17) O pique do Hives
Assim como o Kaiser Chiefs, esses caras sabem fazer show. Assim como o Kaiser Chiefs, o Hives também era uma banda meio esquecida, cujo auge ficou no começo dos anos 2000. Mas surpreenderam todo mundo com uma apresentação teatral e enérgica, animando todo mundo.

18) Planet Hemp impecável, como deve ser
Depois de shows "de volta" bem fracos no VMB e no (dis)Estância Alto da Serra, que deixaram muito a desejar, o Planet Hemp finalmente recuperou o fôlego que tinha antes. Isso, sim, é uma das bandas mais importantes do Brasil dando as caras. Energia e entrosamento, Marcelo D2 e BNegão animados,  interação com a plateia, set list cobrindo seus 3 discos sem ter que repetir nenhuma música (como fizeram no Estância), show pontual, agitado, intenso, pesado. Uma barulheira daquelas, plateia enlouquecendo, rodinhas de bate cabeça. Também entra na lista de melhores shows do Lolla. O vídeo do começo da apresentação, que já tinham usado em outros shows, é genial. Traz ninguém menos que o Gil Brother, o Away de Petrópolis, falando sobre a liberação da maconha.

A única coisa que eu não entendo e que sempre se repete em shows do Planet Hemp é a organização contratar uma banda como essa e não treinar seus funcionários e seguranças sobre como lidar corretamente com pessoas fumando maconha na plateia. Isso tudo depois de uma revista bem mal feita na entrada do festival, ainda por cima. Vi muita coisa errada: segurança batendo em pessoas, falta de informação, funcionário brigando com o cara que tinha um baseado e tomando o cigarro para depois discretamente guardar no bolso, objetos pessoais que nada tinham a ver com maconha sendo afanados por seguranças,  ofensas e xingamentos. Dá pra ser mais hipócrita?

19) O Planet Hemp indo pra Chicago
Assim como no ano passado, o Lollapalooza Brasil vai levar uma de suas atrações nacionais para o festival original, realizado nos EUA, em agosto. Em 2012, foi o Rappa. Este ano, é o Planet Hemp. Rio de Janeiro bombando na gringa.

20) O Lolla no Grajaú

Pouca gente ficou sabendo, mas o Lolla BR tinha um palco fora do Jockey. Era o palco Grajaú, localizado no bairro do extremo sul da cidade de São Paulo, que concentra muitas comunidades de baixa renda - e de onde vem o hoje famoso Criolo. Em parceria com a Rede Globo, o acesso ao palco Grajaú era gratuito, aberto a todos. E a programação contava com um telão para transmitir os shows do Jockey ao vivo, programação própria com shows de Lirinha (ex-Cordel do Fogo Encantado), Tokyo Savannah e bandas locais como JPA Epycentro, Gê de Lima, DonaLaíde e Família Causa Comum; grafite e street dance. Uma iniciativa muito bacana!

21) O Lolla se firmando como um dos maiores festivais de música do Brasil
O Lolla é gigante: foram mais de 85 horas de música, três dias, 167 mil pessoas em média por dia e mais de 70 boas atrações. E, ainda que seja muito "importado" e americano, o festival indiscutivelmente se consolidou como um dos maiores e melhores eventos de música do país com essa segunda edição. E já temos as datas marcadas pra edição brasileira do ano que vem: O Lolla BR 2014 acontece nos dias 18, 19 e 20 de abril, no mesmo local (o Jockey Club de São Paulo) e no mesmo feriadão que emenda a sexta-feira santa e o domingo de Páscoa. Só podiam dar uma melhorada no preço e nas vendas de ingressos no ano que vem. Que pelo menos excluíssem as malditas taxas de (in)conveniência, que cobravam um quarto do valor do ingresso! Acho uma extorsão!

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