sábado, 8 de dezembro de 2012

Especial Rock Nordestino - Parte 4

ENTREVISTA
A Banda de Joseph Tourton

A última parte do especial Rock Nordestino traz uma entrevista com os integrantes da Banda de Joseph Tourton, de Recife. O grupo é formado por Pedro Bandeira (bateria), Rafael Gadelha (baixo), Gabriel Izidoro (guitarra, escaleta, teclado e flauta) e Diogo Guedes (guitarra). Eles tocam juntos desde 2007 e fazem um som instrumental nada óbvio, unindo diversos estilos e destacando sopros como escaleta e flauta transversal. Tem jazz, rock progressivo, samba rock, dub, reggae, uma infinidade de sons. Em seu primeiro disco, lançado em 2010, A Banda De Joseph Tourton contou com a participação especial de integrantes do Mombojó e do Móveis Coloniais de Acajú, além de China, Vitor Araújo e Guizado.

Como foi que a banda começou? De onde vem a vontade de tocar?
A banda começou justamente da grande necessidade de tocar que a gente tinha. Você é jovem, tem um instrumento em casa e alguns amigos doidões na mesma situação. Deu nisso. Decidimos nos reunir pra tirar um som juntos, na rua que dá nome à banda - Joseph Tourton - e, desde então, estamos nessa mesma pegada.

Como vocês fazem suas músicas?
Fazer música autoral sempre foi um processo muito natural pra banda. É basicamente empunhar o instrumento e tocar o que der na telha. Quando você entra num espaço com várias cabeças pensantes pra realizar uma ideia, às vezes pode ser um pouco complicado. São muitos pensamentos distintos que podem ser conflitantes, mas a gente leva isso numa boa. Tenta sempre respeitar as ideias um do outro e isso meio que terminou se tornando nossa identidade, a mistura de várias elementos e texturas numa mesma música. O público costuma receber de maneira muito legal o trabalho.

Como é ser uma banda instrumental?
Acho que toda banda instrumental deve ter escutado uma vez na vida que deveriam botar um vocalista, que dá mais visibilidade e mercado pra banda. A gente realmente tem a preocupação de estar tocando pro maior número de pessoas possível, mostrar nosso trampo é importante pra gente. Mas, sinceramente, a gente é muito tranquilo quanto a ser uma banda instrumental. E, ao contrário do que muitos pensam, existe muita gente disposta a escutar música instrumental, principalmente com essa
nova roupagem que ela recebeu de uns 10 anos pra cá, que revelou muita banda boa inclusive - Burro Morto, por exemplo, é uma banda muito foda.

Já sentiram algum tipo de preconceito por serem nordestinos?
Acho que muito pelo contrário. Sinto que as pessoas estão cada vez mais interessadas em saber o que está acontecendo em outros lugares, o que está sendo feito de diferente. E a gente vem de um lugar que sai muita coisa boa, que já recebe uma atenção naturalmente. Além do que pessoas preconceituosas e bitoladas não costumam fazer parte do nosso público.

Vocês são de Recife e a cena musical local é muito taxada pelo Manguebeat. O que vocês acham disso? Dá pra sair do rótulo de manguebeat e da música regional?
Talvez Chico Science seja o expoente máximo de um cara que saiu de Recife pra falar pro Brasil e pro mundo, mas os exemplos são inesgotáveis - Mombojó, China, Junio Barreto, Karina Buhr, Vitor Araújo e a própria Nação Zumbi. Voltando no tempo, temos Alceu Valença, Lula Côrtes, Geraldo Azevedo, Capiba...tem muita coisa rolando em Recife, de tudo que é gênero musical. Sempre chega nego pra rotular, falar que é isso ou aquilo e realmente existe essa tendência de tudo que aparece de novo em Recife ser colocado imediatamente lado a lado com o Manguebeat. A gente encara como um movimento que rolou na cidade, foi bastante importante em diversos aspectos, mas, como acontece com a maioria dos movimentos, ficou no tempo, foi pontual. Rolam os desdobramentos, claro. Fomos influenciados pelo movimento, sim.

Vocês podem indicar outras bandas nordestinas que vocês curtam?
Tem uma banda instrumental em Recife que achamos bem legal, a Kalouv. É um som meio denso, bem climão. Quem produziu o CD dos caras, inclusive, foi o Diogo - nosso guitarrista. Também tem a Rua do Absurdo, que não dá pra explicar muito bem, só ouvindo mesmo (risos).

O que vocês acham da cena musical do Nordeste? Dos festivais, espaços pra tocar, público etc.?
Temos vários festivais por aqui. Praticamente cada capital tem um festival majoritário que dá espaço para bandas independentes, mas ainda precisamos de mais. Em Pernambuco isso não acontece tanto, mas existem várias cidades de interior em outros estados nordestinos que já estão na rota das turnês de várias bandas independentes, por terem público para esse tipo de som.


De onde veio o nome da banda?
Do nome da rua em que Gabriel morava. Nós ensaiávamos na casa do pai dele, na rua Joseph Tourton. Na busca por um bom nome para o grupo, só conseguíamos pensar em coisas que envolviam o Joseph, que no nosso imaginário já tinha toda uma história de vida e tal. Nunca conhecemos o Joseph original...

Qual foi o show mais legal que vocês já fizeram?
Acho que o show mais inesquecível pra banda foi o nosso primeiro show, no Coquetel Molotov, em 2008. Fiquei meio de cara em ver que tanta gente estava interessada em conhecer nosso som só pelo fato de terem escutado um EP gravado num esquema muito caseiro. Não foi o nosso melhor show do ponto de vista técnico da coisa, longe disso. Mas foi o show que a gente olhou um pro outro e viu que a coisa podia tomar outros rumos. E rolou uma vibe muito legal também - apesar do ser o primeiro show, estávamos muito à vontade.


Como foi trabalhar com o Buguinha Dub?
Foi muito massa. Buguinha é um cara que saca muito de som, de tirar a sonoridade certeira das coisas. Quando surgiu a ideia, a gente pirou. Curtimos muito música jamaicana, principalmente dub, e ele é um dos maiores representantes do gênero no país. O resultado foram duas músicas remixadas do nosso CD, que ficaram bem cabeçudinhas (risos).

Com que outros artistas vocês gostariam trabalhar?
Temos vontade de trabalhar com muita gente, muita mesmo. Já tocamos com diversas pessoas, como Lúcio Maia, Guizado, Vítor Araújo, até com o Maestro Mateus Alves. Participações são sempre interessantes porque trazem novos ares para a banda.


Como foi fazer o clipe super bem produzido de "A Festa de Isaac"? E como foi participar do festival Anima Mundi com ele?
Na verdade, a grande responsável pelo clipe todo foi a diretora, Ianah Maia. Ela estudou a música, bolou um roteiro muito bacana e mandou ver nas animações. Ficamos muito felizes com o resultado. A participação no Anima Mundi foi mais do que merecida.


Vocês estão gravando seu segundo disco. O que vem por aí?
Estamos fazendo shows com menos frequência porque estamos quase 100% concentrados no novo álbum. Estamos ensaiando bastante e sempre gravando material para analisarmos e termos ideias. Em novembro fizemos um show no projeto Arraial Instrumental daqui de Recife, que dá uma força pra quem faz um som instrumental, independente de estilo. Nós estamos no processo de pré-produção do disco novo. A gente não se forçou a lançar logo um próximo álbum, deixamos rolar naturalmente. E ele tá ficando do jeito que a gente queria. Então podem esperar que vem uma bela criancinha no ano que vem. As músicas novas estão bem pesadas!


Este especial sobre Rock Nordestino é um projeto meio megalomaníaco do LADO Bá que foi publicado em quatro partes. Confira também a Parte 1, a Parte 2 e a Parte 3.

* Toda a apuração do especial sobre rock nordestino foi originalmente feita para a revista "Quanto Mais Queijo, Menos Queijo - CMQMQ", uma publicação de alunos de artes plásticas da Faculdade Belas Artes de São Paulo- em uma parceria minha com o genial artista Fernando Feio. Se liga nas coisas que ele faz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário