sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Especial Rock Nordestino - Parte 3

ENTREVISTA
Vivendo do Ócio


Continua o especial sobre rock feito no nordeste do Brasil. Hoje a entrevista é com os meninos da banda soteropolitana Vivendo do Ócio: Jajá Cardoso (vocal e guitarra), Luca Bori (vocal e baixo), Davide Bori (guitarra) e Dieguito Reis (bateria). Eles juntam boas letras em português, com sotaque baiano, a um som que remete a Strokes e Arctic Monkeys. Já tocaram com a lenda viva Lou Reed (!!!), fazem um show de lavar a alma e são super simpáticos e acessíveis.


Como a banda começou? De onde vem a vontade de tocar?
Jajá - Em 2006, no Centro Histórico de Salvador, eu e o Luca estávamos numa época de ócio mesmo. A gente tinha outra banda antes, que tinha terminado no mesmo ano; e aproveitávamos nosso tempo livre compondo. Conhecemos nosso primeiro baterista, Mamede Musser, pela internet. E o Davide, que é irmão do Luca e já tava vendo tudo de perto, acabou completando a VDO. Em 2008 o Mamede saiu  e aí o Dieguito, que já tinha tocado com o Davide em outra banda e substituído Mamede algumas vezes com a gente, assumiu a bateria. A vontade de tocar é uma coisa inexplicável, é um sentimento, como a vontade de fazer sexo.

De onde veio o nome da banda?
Luca - O nome surgiu do momento que a gente estava vivendo no começo da banda, em 2006. A gente tinha terminado o colégio e aproveitava nosso tempo livre pra tocar e criar músicas juntos. Somando isso com a inspiração da teoria do "Ócio Criativo", de Domenico de Masi, surgiu a Vivendo do Ócio.

É difícil fazer música autoral? Como é o processo de composição da VDO?
Jajá - A galera gosta do nosso som, temos público de todas as idades. Claro que não dá pra agradar a todos, mas temos rodado o Brasil e a cada cidade que tocamos a recepção tem sido ótima, todo mundo cantando as músicas e querendo chegar perto da gente, é muito massa ter essa comunicação com o público. Na real é difícil viver de música no Brasil. Se você faz música, ela já é autoral por si só, do contrário nem estaria falando contigo agora, se fôssemos uma banda de baile, por exemplo (risos). Nosso processo de composição é coletivo e não seguimos um padrão, vamos deixando fluir, com cada um colocando sua viagem.

Vocês já sentiram algum tipo de preconceito pelo fato de serem uma banda nordestina?
Dieguito - Não, nunca sofremos nenhum tipo de preconceito, muito pelo contrário! Quando as pessoas sabem que somos da Bahia nos respeitam bastante, principalmente no meio da música, pois de lá saíram grandes nomes como Novos Baianos, Caetano, Raul...

Indiquem algumas bandas nordestinas que vocês curtam.
Dieguito - Cascadura, Pitty, Nação Zumbi, Selvagens à Procura de Lei, Maglore e Camarones Orquestra Guitarrística.

É diferente fazer show no Nordeste e fazer show em outras regiões do Brasil?
Dieguito - Pra mim é mais ou menos a mesma coisa, mas o público do nordeste é um pouco mais quente. A galera é muito doida, quebra tudo, é massa! Mas depende muito, os ociosos são tudo maluco em qualquer lugar do Brasil.

O que vocês acham das pessoas que pensam que no Nordeste não existe rock?
Luca - São pessoas desinformadas e acomodadas, pessoas que precisam procurar um pouco mais de informação. A internet está aí pra mostrar a qualidade e a quantidade de bandas que existe no Nordeste.

O que vocês acham da cena musical do Nordeste? Dos festivais, espaços pra tocar, público etc.?
Davide - A cena musical lá é muito boa, tem muitas bandas de alta qualidade, como as que o Dieguito citou. E o público é caloroso. Tem festivais de grande porte como Do Sol, Abril Pró-Rock, Festival de Verão, Rock Concha, entre outros.

Por que vocês se mudaram para São Paulo? Existem mais oportunidades para uma banda rock aqui do que em Salvador?
Luca - Com certeza, além da cidade ser maior e mais centralizada, a maior parte dos meios de comunicação estão por aqui, o que facilita muito a divulgação para todo Brasil.

Como foi ganhar o VMB e o prêmio do Guaraná Antártica?
Jajá - O GAS Sound foi nosso pontapé inicial, quando vencemos esse concurso lançamos nosso primeiro disco -  "Nem Sempre Tão Normal". Consequentemente, isso gerou um contrato com a Deck. Aí viemos pra São Paulo em 2009 pensando em ficar alguns meses, apenas pra divulgar o disco; mas acabou rolando nossa primeira indicação no VMB. A MTV apostou na gente, levamos o prêmio e, sem dúvida, abriu portas ter esse reconhecimento. Também foi muito bom voltar ao VMB este ano, indicados a duas categorias: "Melhor Música", com "Nostalgia"; e "Melhor Disco", com "O Pensamento É Um Ímã". Essa categoria de melhor disco é especial para nós, pois representa o conjunto de todo o trabalho sendo reconhecido.

Dá pra se sustentar sendo músico no Brasil, hoje?
Dieguito - Há três anos só trabalhamos com música, é como qualquer outra profissão. Como diria o Macaco Bong, artista é igual a pedreiro. E quem trabalha, come!

Todos os shows que vi de vocês foram super enérgicos e intensos. Vocês sempre se apresentam assim?
Davide - Claro, isso é de grande importância! A energia que passamos e recebemos do público é essa troca que mantém a máquina funcionando.

Qual foi o show mais legal que vocês já fizeram?
Dieguito - Fica difícil escolher apenas um, mas tem dois shows que com certeza foram muito importantes pra nossa carreira: o Brazilian Day London, em 2010, onde tocamos para mais de 15 mil pessoas e fomos a única banda de rock do festival; e dividir o palco com uma das maiores lendas vivas do rock, Lou Reed, no festival Italia Wave.

Vocês gravaram quatro clipes na Europa - dois em Londres, um em Amsterdã e outro na Itália. Como foi isso?
Jajá - Fizemos uma turnê pela Europa em 2010. Aproveitamos ao máximo as temporadas que passamos por lá, não poderíamos deixar de fazer clipes e sessões de fotos naqueles lugares incríveis. Foi bom demais e não tínhamos uma estrutura com grande equipe ou coisa do tipo, eramos nós, o diretor e mais 2 ou 3 amigos, cada um carregando uma coisa e se virando do jeito que dava. O mais legal foi ver que tudo funcionou e em certo ponto até superou nossas expectativas, como o clipe de "Silas".



Como foi trabalhar com o Chuck Hipolito?
Luca - Chuck é um cara fantástico e que entende muito de Rock. Ele já estava na estrada muito antes de a gente pensar em tocar algum instrumento, então trabalhar com ele foi um grande aprendizado. Ficamos muito felizes, pois acrescentou muito ao nosso som.

Com que outros artistas vocês gostariam trabalhar?
Jajá - Carlinhos Brown, Caetano Veloso e Titãs. Com o Carlinhos e o Caetano, tentamos fazer alguma coisa com eles no ano passado, quando estávamos gravando o disco, mas os dois estavam viajando pela Europa e foi impossível. O Titãs, além de ser influência direta, tivemos a honra abrir pra eles esse ano no Rock Concha em Salvador e seria demais ter a participação de algum deles no nosso disco, em especial o Paulo Miklos, que já até declarou em entrevista para a revista Trip que a música de amor preferida dele é a nossa "Amor Em Fúria".

Já estão preparando coisas novas? Tem mais disco e clipes vindo aí?
Luca - De vez em quando surgem umas ideias pra novas músicas e a gente deixa elas gravadas no celular, ou anota em algum lugar, mas por enquanto não temos pressa. Nosso foco está todo no "O Pensamento É Um Ímã".  Acredito que no ano que vem vamos começar a preparar e organizar melhor as novas músicas... em relação a clipes, estamos sempre produzindo. Ainda bem que você lembrou, já está na hora de começar pensar no próximo!


Este especial sobre Rock Nordestino é um projeto meio megalomaníaco do LADO Bá que está sendo publicado em quatro partes. Confira também a Parte 1 e a Parte 2. Amanhã tem entrevista com A Banda de Joseph Tourton, de Recife.

* Toda a apuração do especial sobre rock nordestino foi originalmente feita para a revista "Quanto Mais Queijo, Menos Queijo - CMQMQ", uma publicação de alunos de artes plásticas da Faculdade Belas Artes de São Paulo- em uma parceria minha com o genial artista Fernando Feio. Se liga nas coisas que ele faz.

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