quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Especial Rock Nordestino - Parte 2

ENTREVISTA
Leonardo Martínez - Camarones Orquestra Guitarrística


Continuando o especial sobre rock feito no nordeste do Brasil, temos hoje uma entrevista especial com Leonardo Martínez. Ele tem 23 anos e é um dos guitarristas da banda Camarones Orquestra Guitarrística, de Natal (RN). Também estuda engenharia na UFRN e já tem bastante experiência na estrada, tendo tocado por todo o Brasil e no exterior. O Camarones é formado por Ana Morena (baixo), Karina Monteiro (guitarra), Anderson Foca (teclado) e Artur Porpino (bateria), além do Leo. Tocam rock instrumental com pitadas de ska e surf music.

Como foi que a banda começou? De onde vem a vontade de tocar?
No final de 2007, primeiramente como um projeto que reuniu amigos para estudar estilos diferentes e tocar trilhas de filmes e desenhos. Mas foi surgindo uma demanda de shows que fez com que houvesse a decisão de nos assumirmos como banda, partir para a estrada e gravar um disco. Essa decisão gerou uma grande mudança de formação, que foi o começo do que somos hoje. A vontade de tocar vem do nosso desejo de fazer nossa música e levá-la ao máximo de lugares e pessoas possíveis. Estar na estrada e formar público é um trabalho que levamos a sério, mas nos divertimos muito com a banda e fazemos muitos amigos. Esse equilíbrio é fundamental e é o que nos movimenta.

É difícil fazer música autoral? Como é o processo de composição?
É naturalmente um caminho mais difícil, principalmente quando se trata da música instrumental, mas eu não consigo me ver em uma banda sem estar compondo, é uma necessidade minha de produzir. O nosso processo de composição é muito visual, às vezes penso nas cenas que quero fazer uma trilha, ou vivencio as cenas e penso em trilhas para elas. Às vezes o título vem antes da música, e essa liberdade da música instrumental é muito bacana. A construção das músicas tem uma veia pop, com as guitarras fazendo vozes. Fazemos os discos para cair na estrada. Também gostamos muito de compor em parceria com bandas amigas. Isso resultou em uma espécie de Lado B no nosso último disco, cheio de parcerias com bandas de todo o Brasil.

Ao tocar em outras regiões do Brasil você já sentiu algum tipo de preconceito pelo fato de ser nordestino?
Isso nunca aconteceu de forma perceptível. Pelo contrário, sempre fomos muito bem recebidos em todas as regiões e até fora do país. A música consegue romper barreiras e nos aproximar. Hoje já percorremos quase todos os estados brasileiros sem nenhuma ocorrência desse tipo. Até chamamos atenção por sermos de tão longe e estarmos na correria. Gera um olhar diferente para o nosso trabalho, acaba passando até uma maior seriedade.

Você é de Natal e, apesar de no Rio Grande do Norte existirem muitas bandas, o Estado não é muito reconhecido por isso. Como é a cena aí?
Eu posso dizer que estamos em um momento muito bom e que só tem melhorado. Sempre tivemos bandas excelentes e algumas já caem na estrada para mostrar seus sons. Temos boas bandas de diversos estilos com boas gravações, casas abertas para shows de bandas autorais e o pessoal está levando mais a sério. Isso não acontece só em Natal, mas também em Mossoró, que é a segunda maior cidade do Estado e hoje já tem seu próprio lugar para shows autorais e bandas de muita qualidade. Também temos um grande festival, o DoSol, que já recebeu nomes como Marky Ramone, Exploited, Danko Jones e The Donnas. Isso desenvolve um intercâmbio e um aprendizado para a cena que não tem preço. Estamos bem e avançando bem, o que ainda falta é as bandas caírem na estrada e acreditarem mais nos seus próprios trabalhos. Só para citar algumas das bandas daqui que eu gosto, temos Calistoga, Red Boots, Monster Coyote, Talma & Gadelha e Expose Your Hate. De outros Estados do Nordeste, gosto muito da Vendo147 (BA), Retrofoguetes (BA), My Midi Valentine (AL), AMP (PE) e The Baggios (SE).

O que você acha das pessoas que pensam que no Nordeste e no Brasil em geral não existem boas bandas de rock?
Infelizmente, falta informação. Esse país sempre teve muito rock e eu arrisco dizer que nunca tivemos tantas bandas boas como agora. O momento é ótimo para todos os estilos. O espaço é igual para todos. É só buscar e se informar que o resultado pode ser surpreendente. Tivemos muitas bandas boas no passado, assim como temos hoje e vamos ter no futuro. É outro tempo, outro contexto e as pessoas precisam estar preparadas para entender e absorver isso e não ficarem presas ao passado. Muitas bandas que escutamos são do passado e deixaram para a eternidade o que lançaram, mas temos muita qualidade no presente também. Aqui no Nordeste se faz muito rock e ele vai muito bem. Certamente não é o estilo que se destaca por aqui, mas com um pouco de vontade de conhecer é possível ver que o buraco é muito mais embaixo e as bandas estão cada vez melhores, mais festivais estão acontecendo e muitas bandas de fora estão querendo vir circular pela região.

De onde veio o nome da banda?
O nome veio de uma referência que quisemos fazer à nossa origem potiguar, que significa “comedor de camarão”. O Rio Grande do Norte é um grande produtor e consumidor de camarão; e daí veio o “Camarones”. Já o “Orquestra Guitarrística” foi uma brincadeira pra indicar que é instrumental com guitarras; e aí acabou ficando.

Como foi trabalhar com o Macaco Bong?
O Macaco Bong é uma banda parceira nossa de muito tempo, desde o começo já nos apresentamos juntos, já vieram muito a Natal, então temos muita afinidade e proximidade. Aproveitamos a última passagem deles por aqui, onde fizemos um show juntos, para compor e gravar uma música. É sempre um grande aprendizado, sou fã dos caras desde sempre, então a sensação de fazer isso é a melhor possível.

Com que outros artistas você gostaria de trabalhar?
Já tocamos com muitos artistas que gostamos, mas às vezes desencontramos de bandas amigas com quem gostaríamos de fazer uma parceria. Eu acho que seria interessante uma parceria com o Leptospirose (SP), ou Rinoceronte (RS), Móveis Coloniais de Acaju (DF) e os hermanos argentinos do Tormentos. Mas o sonho de todo mundo da banda é fazer uma parceria com o Brian Setzer (risos).

Existe alguma solução para melhorar a cena de bandas independentes no Brasil?
Estamos indo bem, mas sempre é possível melhorar. A solução é trabalhar, buscar parcerias com quem se quer trabalhar e fazer a coisa girar, não se prender muito a um parceiro ou outro, mas buscar o que pode ser interessante. Sair, fazer turnês, aproveitar os festivais como um trampolim para turnês, explorando esse potencial e otimizando as ações. Acho fundamental hoje em dia que as bandas não dificultem o acesso às suas músicas e que tentem ver o show e o merchandising como principais fontes de renda. E que invistam muito na formação de público, porque é o público quem faz toda a diferença. Sem ele, nada aconteceria.

O Camarones tem alguma novidade vindo por aí?
Deveremos lançar mais um clipe em breve, mas nosso foco agora está em terminar os shows desse ano. Em 2012 passamos pelo Sul do país e pelo Chile e voltamos da nossa maior turnê, que teve um mês de duração, quando percorremos de carro todo o Nordeste até o Pará. Depois caímos na produção do nosso terceiro disco, que deverá ser gravado no início de 2013, para então sair na turnê de divulgação dele. Temos o sonho de lançar algo em vinil, vamos ver se sai dessa vez.


Este especial sobre Rock Nordestino é um projeto meio megalomaníaco do LADO Bá que vai sair em quatro partes. Clique aqui para ler a Parte 1. Amanhã, você pode conferir a entrevista especial com os integrantes da banda baiana Vivendo do Ócio. Stay Tuned!

* Toda a apuração do especial sobre rock nordestino foi originalmente feita para a revista "Quanto Mais Queijo, Menos Queijo - CMQMQ", uma publicação de alunos de artes plásticas da Faculdade Belas Artes de São Paulo- em uma parceria minha com o genial artista Fernando Feio. Se liga nas coisas que ele faz.

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