segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Respeito é pra quem tem?

Quarta-feira, 14 de novembro. Véspera de feriado. Saio do trabalho mais cedo, correndo que nem uma louca no tráfego intenso das seis da tarde. Pego a estrada, com medo do trânsito paulistano que consegue ficar ainda pior quando quase metade da cidade decide ir para a praia.

Demora pra chegar no Estância Alto da Serra. "Êta, lugarzinho longe...por que resolveram fazer o show aqui, hein?!" "Tanto lugar pra tocar perto de estação de metrô - e me escolhem esse pico, no meio da estrada, no meio do nada." "Véi, isso aqui é mais de meio caminho pra Santos!". "Ainda bem que a gente não pegou tanto trânsito assim, né...só a Bandeirantes tava cheia, isso é praticamente um milagre pra véspera de feriado na hora do rush!"

Milagrosamente consigo chegar umas oito e meia da noite no lugar do show, que vai enchendo aos poucos. O lugar é enorme e os ingressos estão esgotados há meses. Um DJ toca musiquinhas legais enquanto o pessoal espera ansiosamente. E espera. E continua esperando. E espera mais. E cansa, mas continua esperando. E o show não começa NUNCA.

Foi um atraso de mais de cinco horas (!!!) até que o rapper Projota subisse no palco, sendo apresentado por ninguém menos que o próprio Marcelo D2, como se precisasse de escolta. O Estância Alto da Serra é realmente um lugar imenso (o terreno tem mais de 950 mil metros quadrados) e já se encontrava completamente abarrotado. O público, furioso, xingava, vaiava, jogava coisas no palco, mostrava o dedo do meio. Mas estavam todos ali, de pé, esperando por horas a fio. Ninguém teve coragem de virar as costas e ir embora. O coitado do Projota, se é que teve alguma culpa na história, certamente não foi o único responsável. Mas foi quem pagou o pato. Deve ter sido o show mais tenso que fez na vida. Tocou umas três músicas e se viu forçado a sair. Um verdadeiro bode expiatório.

E o Planet Hemp ainda demorou mais de meia hora para tomar seu lugar, finalmente saciando  o público, que já estava esgotado - mas arranjou forças para pular, gritar e fazer uns bate cabeças meio mixurucos, depois de uma espera de mais de dez anos (sem contar o atraso no dia) para poder ver a banda. O show foi mais curto do que o esperado, mas foi muito bom. Fez a maioria esquecer da tremenda falta de respeito e do descaso dos artistas, da casa e da organização pelo atraso injustificado.

O coitado do DJ, que estava sozinho aguentando as vaias e as latas de cerveja até as três da manhã, já não tinha mais repertório para tocar. Repetiu um monte de músicas (algumas chegaram a tocar três vezes) e finalmente disse, todo miudinho, que o show já ia começar, "por favor tenham paciência", que os caras se atrasaram porque "estava muito trânsito, gente! É véspera de feriado...". Ele se esqueceu que a multidão que se aglomerava ali tinha se esforçado para chegar na hora certa, apesar de a maioria ter trabalhado, viajado horas, feito o impossível para fugir do trânsito e não perder um segundo sequer do show tão aguardado. E que estavam cansados e irritados depois de passar cinco horas esperando de pé em um lugar que cobrava R$ 6,00 por 300 ml de água (!!!) e que fica no meio do nada na estrada velha de Santos.

Não importa o quão bom o show de volta do Planet Hemp tenha sido. Não importa o quanto todos os presentes tenham desejado ver a banda, pagado caro num ingresso, se deslocado mais de 20km para vê-los e esperado horas até o show começar. Não importa o caos que se instaurou para poderem finalmente ir embora para casa depois, com o dia nascendo e sem trânsito nenhum na estrada, apesar de uma fila de mais de uma hora para conseguir apenas sair do estacionamento do Estância Alto da Serra. Não importa que a produção do show tenha escolhido um lugar de acesso dificílimo, que forçava as centenas de pessoas presentes a usar carros, ônibus e vans alugados em uma véspera de feriado na cidade que tem um dos piores trânsitos do mundo.

Ou importa?

O que fica é a indignação pela tremenda falta de respeito - e o pior: a falta de justificativa e de desculpas. NINGUÉM explicou o atraso ou pediu desculpas. Ninguém. Nem mesmo o Projota ou os integrantes remanescentes do Planet Hemp se preocuparam em dar alguma explicação para a platéia. E assim fica muito difícil aguentar o Marcelo D2 cantando, a plenos pulmões, "mantenha o respeito". Que baita hipocrisia.




* Os ingressos para o primeiro show do Planet Hemp em São Paulo se esgotaram em menos de uma semana. Com esse tremendo sucesso, um show extra foi realizado no feriado do dia 15 de novembro, no mesmo local. Não fui nesse segundo show, mas vi comentários na internet alegando que foi muito mais tranquilo e vazio - apesar de eu não saber se houve atrasos de novo. 

** O grupo carioca Planet Hemp é uma das bandas mais seminais do Brasil, influenciou um monte de artistas com seu som, suas letras e sua postura política e levantou a bandeira da legalização da maconha em uma época em que pouquíssima gente tinha coragem de falar sobre isso abertamente. Tiveram a façanha de colocar suas músicas polêmicas no rádio e de serem contratados por uma gravadora gigante e poderosa do mainstream. Gravaram 3 discos. Misturaram hardcore com hip hop e elementos de música brasileira e jamaicana. É uma banda que, teoricamente, merece todo o respeito e admiração. Eles se separaram no começo dos anos 2000. Seus integrantes mais famosos são o rapper Marcelo D2, que ganhou notoriedade com sua carreira solo até no exterior; e o BNegão, que mantém a excelente banda Seletores de Frequência e fez inúmeras parcerias com artistas de todo o país. Ele também representou o Brasil no show de encerramento da Olimpíada de Londres esse ano. O rapper Black Alien se recusou a reintegrar a banda nessa volta. Ele é brigado com os demais integrantes até hoje. O baterista original, Bacalhau (um gênio), hoje toca com o trio Autoramas e também não voltou para a turnê de 2012. E o Skunk, que fazia parte da formação original e formou a banda com o Marcelo D2, faleceu ainda nos anos 90, sendo substituído pelo BNegão. Logo depois, o Planet seria contratado pela Sony e ficaria grande.

Um comentário:

  1. Olá! Meu nome é Felipe Chaguri, tenho 21 anos, fui nesse dia ao Estancia acompanhar o primeiro show do Planet Hemp da minha vida, já que outrora, eu já curtia o som, mas por conta de minha idade não podia ir aos shows...

    Primeiramente, parabéns pelo texto. Como é bom ver que tem gente que tem o mesmo pensamento que eu tenho.

    Também fiquei muito irritado com o atraso, não tinha baseado que me acalmasse mais... Mas realmente, o que me deixou mais nervoso, foi a falta de consideração com o público, pois, ninguém dava notícias sobre o que estava acontecendo, não estimavam um horário para o show começar, e o pior, nem sequer pediram desculpas quando os shows começaram, tanto Projota quanto Planet Hemp.

    Simplesmente entraram no palco, como se não tivesse acontecido nada...

    Música, é a coisa mais importante na minha vida, é o que me mantém de cabeça erguida, por conta dos problemas que passo. Problemas esses, que muito se dão simplesmente pelo fato de eu ser maconheiro e ter dreads. Com isso, já da pra perceber o quanto Planet Hemp ERA importante pra mim.

    Meu sonho é viver de música, já tentei muitas outras coisas, mas não adianta, em tudo, você precisa de uma imagem, seguir um caminho padrão (escola/cursinho/faculdade/emprego/morte), tudo aquilo que agente já sabe. Em contrapartida para tudo isso, existe a arte, caminho que não existe regras, o refúgio dos rejeitados, aonde você pode ser sincero.

    Fiquei em depressão com a falta de respeito dessa banda que eu tanto idolatrava desde criança, faz eu duvidar de tudo, me faz pensar: "Será que existe alguém que realmente se importa?", "alguém que se importa em ter respeito e ser sincero?", "que não faz as coisas por dinheiro?"... Realmente, o Planet Hemp não é mais um desses, depois que fizeram sua grana, apareceram na globo, fizeram shows de aniversário para Mtv, e viram uma boa oportunidade para uma mini - turnê, com preço mínimo de 70 reais, realmente, eles só cantaram por cantar, só cantaram por grana e fama, para seu nome não apagar, mas toda sua ideologia e lembrança de onde vieram, já não importa mais para eles...

    Nessas horas me lembro muito do Nirvana, podem falar o que for deles musicalmente, mas o Nirvana era uma banda onde fama e grana não era o mais importante, tanto é que, Kurt Cobain tinha tudo isso e meteu uma bala na cabeça. Quem é honesto se revolta o tempo inteiro em um mundo como esse, as vezes da vontade de meter uma bala na cabeça...

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