quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Criolo, Emicida, Mano Brown...e o rap no Brasil


No sábado assisti a um show especial de parceria entre o Criolo e o Emicida, dois artistas paulistanos que são apontados como responsáveis por catapultar o rap hoje. Eles repetiram a dobradinha que apresentaram no SESC Pompeia no começo de janeiro, em um show lindo, muito bem estruturado, com uma banda pesadíssima liderada pelo "maestro" Daniel Ganjaman e muitas participações especiais (como Rael da Rima e, no final, Mano Brown), mesclando músicas dos dois e ficando juntos no palco todo o tempo. Coisa fina.

O show de sábado foi ainda melhor do que o de janeiro, mais intenso, mais pesado, com um público maior e mais agitado e participativo. Sim, muitos superlativos são necessários para descrever o que eu vi e ouvi ali. E, ainda por cima, era uma gravação de DVD, o que tornava o evento ainda mais especial. O curioso é que a gravação usava várias câmeras pequeninas tipo "go pro", instaladas até nos instrumentos! Tinha câmera nos microfones, nos instrumentos de sopro, na bateria, nas pickups do DJ Nyack e até na testa do Ganjaman! E mesmo os cameramans que circulavam pelo palco usavam essas camerazinhas na filmagem. Imagino como vai sair esse DVD, com imagens capturadas do ponto de vista do microfone do Emicida, por exemplo...bem louco!

Acontece que esse show foi uma coisa muito importante não só para o rap, como para a música brasileira. Não foi só um show excelente e a gravação de um DVD. A apresentação representou um avanço enorme para o rap e para bons artistas independentes que fazem música de qualidade no nosso país. O Criolo passou mais de 20 anos cantando e rimando até conquistar, finalmente, o reconhecimento que merecia. O Emicida conseguiu um espaço que nenhum rapper tinha conseguido antes no Brasil, quebrando preconceitos e ganhando a mídia a seu favor. Esse cara é muito esperto. E, junto com ele, abriu portas para muita gente e fortaleceu sim o rap no país. Isso é indiscutível. Nunca se falou tanto sobre rap quanto hoje, fora da bolha do mundo do rap, claro. E eu sou uma prova viva disso.

Nunca fui e não sou uma grande entendedora de rap e demorei para gostar de hip hop, apesar de sempre ter escutado algumas coisas. Foi só na faculdade que aprendi a respeitar e a entender melhor o que era o hip hop e passei a apreciar mais o estilo. Mas, até hoje, não é meu tipo de música preferido. Sempre me atraíram mais artistas que juntavam ao hip hop elementos externos, como a música jamaicana. Daí veio meu grande amor pelo Rael da Rima, por exemplo. Quem disse, afinal, que todo rap tem que falar de favela, crime, vida loka, tiro e fazer cara de mau? Não percebem o quanto isso limita e soa autoritário? O Emicida me ganhou de cara justamente por ter letras MUITO inteligentes e não falar só de crime e favela. Ele foge do estereótipo de rapper. E isso é ótimo. Por essas e (muitas) outras que conquistou tanto público, incluindo pessoas fora da cena do hip hop, como eu. O Criolo conquistou a fama de forma parecida. Depois de anos fazendo rap, tendo fundado a Rinha dos MCs e com um disco não conhecido no currículo (Ainda Há Tempo, de 2006), foi com um álbum que tinha sonoridades muito além do tradicional hip hop que ele conquistou fãs fora da bolha do rap e acabou ficando famoso.  E, nessas, os dois jogaram pro holofote um monte de outros rappers e grupos de rap que antes não eram tão famosos, como o Rael da Rima, a Flora Mattos, o Kamau, a Karol Conká, o Pentágono, a Lurdez da Luz e muitos outros. Isso é fato consumado e não tem como negar. Haters, podem tirar o cavalinho da chuva.

Se você for a qualquer show ou batalha de rap, hoje, vai ver o lugar mais cheio e com um público mais diversificado. E, se você achar isso ruim, me desculpe. Mas você é um grande bobo. A roda tem que girar, a música está dentro de uma indústria e, se estiver fortalecida assim, vai conseguir se sustentar, se manter, crescer e conquistar muito mais. O rap é o estilo que mais cresce na música independente do país hoje. E não é à toa. O Emicida começou na batalha da Santa Cruz, que ainda existe. E agora faz show pra mais de sei lá quantas mil pessoas. E chegou lá como, fazendo jabá? Não, fazendo à mão um monte de CD e vendendo por R$5, usando a internet de forma inteligente, fazendo letras boas, muito show e primando pela qualidade. E ele já era bem famoso antes de fazer a parceria tão criticada com o NX Zero, hein. O Criolo, por sua vez, felizmente conseguiu algum retorno com seu trabalho antes de desistir e de abandonar os palcos. Foi uma grande sorte. Imagina quanta gente teria perdido a oportunidade de conhecer a sua arte se isso não tivesse acontecido. Imagina quanta música boa a gente perderia!

Sem contar que o rap feito pela nova geração é bom, sim. Tanto que foi endossado pelo Mano Brown, fundador e líder dos Racionais MCs, o rapper mais respeitado e renomado do Brasil. Sua participação no show de Emicida e Criolo foi uma coisa muito significativa. Ainda mais por ele ter aparecido no fim do show, quando a dupla entoava clássicos do rap nacional, mostrando respeito e reverência aos artistas que vieram antes deles. Quando o Brown entrou no palco, foi uma coisa espantosa. A casa veio abaixo, foi uma comoção geral, e ouvi um cara gritar "CHUPA!" - o que significa muita coisa nesse contexto, minha gente. É como se o Brown estivesse dando um selo de aprovação. E calou a boca de muita gente que insiste em comparar os antigos grupos de rap, como os próprios Racionais; e rappers mais antigos como o Sabotage a qualquer coisa nova que apareça, sempre denegrindo a arte contemporânea e vivendo em função de uma nostalgia com argumentos que não se sustentam tão bem assim, como "ah, são todos uns vendidos" ou "ah, eles cantam pra playboy".



Nós não deveríamos discriminar, mas sim ficarmos felizes por ter tanta gente ouvindo música boa. Já ouviu alguém dizendo que gostaria de ter vivido nos anos 60, quando música boa era pop e tocava no rádio? Pois bem, minha gente, isso pode se tornar realidade de novo se a música boa se tornar mais e mais popular. Pensem nisso. E essa história de criticar artista porque tem "playboy" e "muitos brancos" nos shows me deixa louca. Se você acha ruim sofrer preconceito por ser pobre e negro, por morar em uma favela, e faz letras de rap criticando isso, que sentido faz criticar uma pessoa branca de clase média só por ela gostar de um determinado artista ou estilo musical? É uma grande hipocrisia e um preconceito tão burro quanto  o primeiro, extremamente excludente. Se mais pessoas ouvissem o que têm a dizer os que moram em favelas, talvez mais pessoas passassem a entender o contexto real da comunidade pobre e se mobilizassem para melhorar a situação, mudando sua forma de pensar e agir em sociedade, votando em candidatos e partidos diferentes, quebrando barreiras e preconceitos. Nunca pensou por esse lado? Isso sem contar que os artistas não têm como controlar quem vai gostar do som deles. Isso é impossível! Esse preconceito com o novo rap é o mesmo que muita gente tem com novas bandas de rock no Brasil. Pura preguiça e falta de conhecimento, já que não correspondem à realidade. Temos muita música boa aqui, é só tirar o bumbum do sofá e ir atrás.

Outra coisa que pensei depois de ver o grande show no sábado foi no Sabotage. Ele morreu no auge de sua carreira e estava preparando um grande disco com o Daniel Ganjaman, assim como fez o Criolo com o "Nó Na Orelha". Imagina o que ia ser esse disco, cara! Eles também tinham uma excelente banda e certamente fariam um show tão incrível quanto o de sábado ou até mais. Felizmente, músicas inéditas do Sabota estão sendo recuperadas pelo DJ Cia da RZO, o Ganjaman, o Rica Amabis e o Tejo Damasceno (esses três do Instituto). As canções devem ser lançadas ainda em 2012 e uma delas caiu na internet esses dias (chamada "Canão foi tão bom"), depois de um jejum de 9 anos sem nada de novo do Sabotage aparecer. Um dos discos mais aguardados da história, que perdemos pela morte precoce, brusca e violenta de um grande artista. Triste.

 

13 comentários:

  1. Garota, que texto monstro. Muito bom mesmo.
    Você conseguiu expressar com muita clareza o que eu penso eo que é a realidade atual. Parabéns.
    Estou escrevendo um artigo científico sobre o RAP e este momento, gostaria muito de poder entrar em contato contigo para te citar.
    Parabéns....
    Abraço,
    K.S.

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  2. Oi, Karlene! Primeiro de tudo, muito obrigada por me ler. Ainda mais que esse texto era bem grande. Segundo, muito obrigada pelos seus elogios. Eu fico SUPER feliz, de coração! Honestamente, tava com um pouco de medo de aparecer uma galera me xingando por causa desse post, haha. Você pode falar comigo sim, achei muito massa tua pesquisa! Meu e-mail é bamonteirodeoliveira@gmail.com. Beijão pra vc!

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  3. Texto muuuuito fooda ! Você só esqueceu de citar o problema que foi criado pelo preço do ingresso. Choraram muito pelos 80 reais, realmente é caro. Mas quem foi sabe a produção fudida que foi criada e com certeza não está sentindo um pingo de falta do dinheiro que foi gasto. Quem não quis pagar, agora fica vendo os vídeos e se lamentando... Históricoooo !

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  4. Exelente texto!!! Acho que é difícil pra alguns aceitar a evolução do RAP. E no meu ponto de vista, a mídia sendo usada a nosso favor é um excelente fator que não pode faltar. MV Bill já tem essa visão a bem tempo!!! Agora é só questão de tempo... O merecimento virá!

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  5. O rap ainda esta só em São Paulo, voce acha que entende de rap mas só conhece os que te empurram.
    Viajei pra Florianópolis e vi um show do MC Sequela Pirata, pra mim a maior revelação dos últimos anos. Sem mídia, sem apoio.
    Coloque no youtube "Uma Carta ao Céu" e veja, simplesmente é o RAP MAIS LINDO que eu ja ouvi,uma história real, e não essas letras hipócritas e demagogas que a maioria faz.
    Voce não conhece é claro, ele nunca passou na MTV.

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  6. Lógico que o Brown iria aprovar, ele é a favor do rap e sempre foi. Acompanhei o emicida desde o início da carreira, e ja fui muito fã desse cara. Só que de pouco em pouco ele acabou se contradizendo, falando mal de um lado, e fazendo do outro. O maior exemplo que vivemos hoje é o cone crew. O cara que curte rap espera um cantor verdadeiro, que tenha um toque de revolução e malandragem. Cone crew usou disso pra crescer no começo, mostrando sua maneira de viver e protestar, pra depois se contradizerem e só usar essa "lealdade" no começo em prol do grupo. O MV bill por ex, falava tão mal de TV, que foi parar na malhação e na dança dos famosos. Do mesmo jeito que o emicida, continuo admirando muito as musicas antigas, só que hoje tudo q ele falou foi pra vender seu talento.
    O racionais um dia apareceu no jornal na década de 90 com a manchete "Nunca iremos para a Globo", e foi isso até hoje.

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  7. Putaquepariu.... É o melhor texto sobre rap que já li na vida.... Curto rap desde os anos 80... Praticamente ouço todos os dias... Vivi todas as tendências até hoje e nunca tinha lido um texto tão maravilhoso.... Parabéns
    Minha opinião sobre o rap... O rap salvou minha vida com letras que faltavam de dor e favela.... E também de superação .... E depois de amor... Amizade.... O rap cabe tudo .... É dançante .... É amor.. É político .... É revolta ... É paz .... É ódio .... É loko ... É mostro .... É foda... É como a vida de a pessoa.... Sentimentos misturados.... É por isso que o rap é a revolução musical viva 20 anos... E quem cresceu ouvindo os clássicos entao aí ... Arquitetos engenheiros médicos advogados vendedores expresidiarios pais de família etc estamos em todos os lugares ..... Por isso o rap é universal ....

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  8. Respondendo ao primeiro anônimo: eu fui e paguei R$20 reais no meu ingresso! Não sei pq vc viu por um preço tão caro! Mas eu comprei logo no começo, acho que o ingresso foi aumentando...80 é sacanagem, por esse preço acho que eu não teria ido.

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  9. Isaque, muito obrigada! Anônimo 2: eu não acho que entendo de rap coisa nenhuma. Leia meu texto com atenção e vc vai ver que fui muito humilde e disse desde o começo que não sou nem nunca fui grande entendedora do assunto. mas eu entendo de música. E eu tô vendo o que tá rolando á minha volta in loco, eu taba lá e em muitos outros shows de rap em muitos outros lugares e muitos outros meses e anos. Estou apenas relatando o que vejo acontecer. E discordo que o rap ainda está só em SP. Os rappers que chegaram mais longe no Brasil são o Marcelo D2 e o MV Bill, em questões de alcance de público pela mídia. D2 alcançou até a gringa, aliás. O Racionais é o mais respeitado e idolatrado, mas não vão mais longe por uma postura política que escolheram seguir e que na real eu acho correta e coerente, porque está de acordo com o que eles acreditam e pregam. Mas é uma postura anti mídia que os esconde, de certa forma. De uns anos pra cá eles estão se abrindo e expondo mais, mas continuam com essa postura. De qualquer forma, eu tenho muita experiência com banda de rock independente e eu mesma sou uma musicista independente, já organizei show e festival pra mim e pra amigos, sei como é fazer uma apresentação sem apoio de mídia e de ninguém. Então sei do que vc tá falando de Floripa, apesar de infelizmente não conhecer o MC Sequela Pirata. Eu só gostaria que você não me subestimasse tanto, sendo que vc nem me conhece. Foi uma crítica infundada. Mas ok, é tua opinião, tá no seu direito. E fico feliz por vc ter lido meu texto e por ter te levantado muita reflexão. Mas não vem me dizer que eu só conheço o que passa na MTV. Você não sabe MESMO com quem vc tá falando, haha.

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  10. Agnaldo, MUITO obrigada, cara! E eu concordo 100% com você. Eu também fui salva pela música. Pelo rock e pelo punk, mas é a mesma fita. também acho do rap tudo isso que você escreveu, é universal e pode sim salvar vidas. Por isso é tão importante, forte e maravilhoso.

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  11. Bá, mandou muito bem no texto, parabéns! Agora vou virar leitor assíduo.

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  12. Valeu, Kenji =) Vc já foi meu parceiro em show de rap! haha lembra? Bjao

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    1. Lembro, sim! Aquele cobiçado ingresso do 'Emicídio', hahaha.

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