sexta-feira, 29 de junho de 2012

70 anos

Nesse mês de junho, três gênios da música completaram 70 anos: o baiano Gilberto Gil, no dia 26; o californiano Brian Wilson, o fundador dos Beach Boys, no dia 20; e Paul McCartney, o ex-Beatle inglês de Liverpool, no dia 18. Para comemorar o aniversário do Macca, meu amigo gaúcho Wilson, DJ, bom entendedor de música e dono do blog HEATWAVE!, pediu para que várias pessoas escolhessem suas 10 músicas preferidas do Paul. Podia ser da carreira solo ou dos Beatles. O HEATWAVE! é um blog de coletâneas musicais. Quase sempre traz playlists do Wilson com uma mistureba esperta de bandas e artistas novos, sem deixar de lado boas músicas mais antigas. Ele também faz essas listas "temáticas" e comemorativas. A dos 70 anos de Paul McCartney contou com a votação de mais de 70 pessoas. Aí o Wilson organizou tudo, listou as 70 canções mais votadas e montou uma coletânea especial, dividida em três partes, que você pode baixar e ouvir à vontade. Fino!

A votação foi feita por músicos - incluindo integrantes das bandas Cachorro Grande, Pública, Vanguart, a finada (pra minha tristeza) Ecos Falsos e Zefirina Bomba; amigos do blog que manjam de música, sendo eles Beatlemaníacos ou não; e muitos jornalistas - Lúcio Ribeiro (Popload), Denis Romani (festa Tiger Robocop, Band, TVO), Pablo Miyazawa (Rolling Stone), Marcelo Costa (Scream & Yell, IG); e essa que vos escreve! Mas, ao contrário das outras listas, acabei me empolgando e escrevi justificativas para as minhas escolhas desse Top 10 Paul McCartney. E aí separei curiosidades que muita gente não sabe sobre o Paul, os Beatles e as canções. Aqui, coloquei a lista na minha ordem de preferência. No blog do Wilson, está aleatória. Ouça as músicas clicando nos títulos. Saca só:

1) Blackbird - White Album - 1968
Uma das músicas mais bonitas e emocionantes da história da humanidade. Sim, vou ser bem dramática com essa! Tudo nela é tão bonito: o violão, a letra, a voz. Traz uma paz imensa. É uma simplicidade linda: só voz, violão, assobios imitando passarinho e as batidas do pé no chão. E nem precisa de mais nada. A música foi composta só pelo Paul, apesar do clássico crédito "Lennon/McCartney" que toda música dos Beatles tinha. A gravação também é 100% Paul. Ele toca, canta, assobia e bate o pé. Nenhum outro Beatle toca nessa faixa! E a letra foi inspirada nas mulheres negras dos EUA durante a segregação racial. Isso me toca muito. Eu sempre me liguei muito nas letras das músicas e o que elas significam. Blackbird é uma carta de alforria, é uma letra inspiradora, motivacional, que diz "vai lá, minha filha, você é linda e chegou a sua vez". Repara nesse trecho: "take these broken wings and learn to fly. All your life you were only waiting for this momento to arrive. Blackbird, fly". É sobre juntar os cacos, se reerguer e seguir em frente.

2) Junk - McCartney - 1970
Eu conheci essa música pelo Anthology 3 e virou uma das minhas preferidas da vida. A letra é meio doida e ácida, uma crítica à sociedade consumista. Mas a parte instrumental é delicada e bonita demais. Aí ela tem um poder de me acalmar imenso. E me lembra muito a minha irmã, com quem sempre ouvi Beatles. Descobrimos a banda juntas e fomos virando fãs até chegar na beatlemania total! Dividimos discos, filmes e CDs deles desde então, fomos juntas no show do Paul no Morumbi e ela tem umas tatuagens referentes aos Beatles. Então significa muito pra mim ouvir "Junk", é puro valor sentimental, memórias pessoais.

3) Helter Skelter - White Album - 1968
Os Beatles tinham um som mais tranquilo, só era agitadinho e mais rápido no começo da carreira da banda, quando soavam como um rock mais pop, dançante e chiclete, que remetia muito ao rock'n'roll americano dos anos 50. Mas depois eles desenvolveram um som próprio que tinha sim uma pegada mais light. Até que o Paul inventou que queria fazer uma música realmente pesada, suja, com bateria estourando, guitarra com o ampli no último volume e muita distorção, gritos e tudo mais. Dizem que ele se inspirou a fazer isso depois de ler uma entrevista do Pete Towshend, do Who, banda que sempre foi muito mais pesada do que os Beatles - tanto que influenciou a estética musical do movimento Punk na década seguinte. Aí nasceu "Helter Skelter", uma das minhas canções preferidas dos Beatles. Experimenta tocar Helter Skelter um dia, ou pelo menos cantar a plenos pulmões. É demais, é libertador! Você descarrega tudo e sai de alma limpa. Não foi à toa que o Ringo reclamou que tinha feito bolhas nos dedos depois de tocar a música nas gravações do álbum branco. O comentário é tão engraçado e significante que deixaram no álbum, no finzinho da canção. "I GOT BLISTERS ON MY FINGERS!". Todo mundo que já teve uma banda de rock um dia entende perfeitamente. Helter Skelter acabou influenciando muitas bandas posteriormente. Eu acredito que tenha ajudado a abrir portas para o nascimento do rock pesado, do metal e tudo mais que veio depois. Ela também marca a versatilidade musical dos Beatles, uma banda de rock que trabalhou quase todos os estilos e ritmos possíveis dentro desse tipo de música. O experimentalismo deles foi um avanço pra música e pra arte e é muito importante. Por isso eles têm tanto respeito e influenciaram tanta gente. Dizem que a primeira versão de Helter Skelter (que nunca foi lançada), era uma jam session maluca de quase meia hora! E o nome da música foi inspirado num tipo de tobogã que existia num parque de diversões inglês. Daí teria surgido o primeiro verso: "When I get to the bottom I go back to the top of the slide."

O disco russo do Paul
4) Check my Machine - McCartney II - 1980
Nem parece o Paul McCartney. talvez por isso mesmo seja tão genial! Eu admiro a coragem dele de se jogar em um som que não tem nada a ver com os Beatles e o lado mais conhecido do seu trabalho solo. É super repetitiva, mas também é hipnotizante. Me parece uma coisa que o Clash faria, e aposto que o Clash teve uma certa influência nesse som, mesmo. Tem uma pegada ragga, uma pegada de música oriental super brisa, vietnamita ou algo assim, misturada com sintetizadores, disco e o escambau. Também é um sample perfeito pra um hip hop. Foge do rock, traz uma voz super aguda do Paul que a gente não tá acostumado a ouvir e é muito contagiante. Você sem nem perceber começa a balançar a cabeça e a cantar junto. Fica na cabeça por dias.


5) Back in the USSR - White Album - 1968
Essa música é sensacional, pedrinha preciosa de rock, mas além disso tem uma história engraçada. O Paul tem uma relação curiosa com a Rússia. Em uma época em que era perigoso e mal visto curtir os países comunistas, ele compôs essa canção super irônica. Acho legal que ele toca bateria na gravação dessa música, no lugar do Ringo. O Paul também lançou um disco exclusivo na Rússia em 1988, o "Choba B CCCP", cujo nome significa "Back in the USSR" em cirílico. Acho maneiro isso porque era plena época da Guerra Fria, da decadência de tudo, um ano antes da queda do muro de Berlim. Sem contar que o disco todo foi gravado em apenas 2 dias e só tinha covers de clássicos do rock, pique Quarryman, bem anos 50, com sons do Fats Domino e tal. Só 3 anos depois o disco foi lançado no resto do mundo.

6) Jet - Band on the Run - 1973
Essa foi composta pelo Paul, sua esposa Linda e a banda deles, os Wings.
É genial porque é extremamente contagiante. Faz você querer pular gritando "JET!" e dando um soquinho no ar, com aquela cara de "fuck yeah!". Os "uuuuhs" também ajudam. Essa música sempre anima, te bota pra cima. Um rock de arena perfeito.

Jane Asher. Bem gatinha, né?
7) Here, There and Everywhere - Revolver - 1966
Essa também foi composta só pelo Paul, por isso que escolhi. É uma canção bonita e romântica, mas não soa piegas - difícil fazer isso. Ela foi lançada no Revolver, um dos melhores discos dos Beatles - e com uma das capas mais bonitas de todos os tempos. Daqueles que você escuta inteirinho, do começo ao fim, achando todas as músicas tão legais a ponto de conseguir ouvir o disco todo de novo, sem enjoar. Também é uma das músicas preferidas do próprio Paul entre as canções dos Beatles. Quando ele compôs essa canção, estava apaixonado. Ele namorava uma atriz famosa, a inglesa ruivinha Jane Asher, e escreveu várias canções pra ela nessa época. A cantora Marianne Faithfull, que era famosa nos anos 60 e namorava o Mick Jagger, influenciou o vocal. E os Beach Boys influenciaram a introdução, a parte instrumental e o coro do backing vocal. A bossa nova brasileira, que teve o seu auge na época, também foi citada por McCartney como uma inspiração para o estilo instrumental e a levada da música.

8) Hey Jude - Single - 1968
Um dos maiores sucessos dos Beatles, essa canção também é muito contagiante, tem uma letra bonita e motivadora no começo e depois descamba pro "Na Na Na Naaa" que gruda tanto na cabeça a ponto de qualquer pessoa reconhecer a melodia instantaneamente - por mais que não goste de Beatles, por mais que não entenda inglês, por mais que não conheça a letra. O refrão é repetido quase 20 vezes em mais de 4 minutos. A música começa calma, só com voz e piano, e soa quase melancólica. Acaba com um coro feliz e animado cantando Na Na Na Naaa, ritmo acelerado e mais de 50 instrumentos tocados juntos. Foi o single mais vendido e mais comprido da banda, já que a música dura mais de 7 minutos. Isso não era nada comum na época e ainda hoje música comercial costuma ter por volta de 3 minutos, não muito mais do que isso. Mas Hey Jude foi e ainda é um baita sucesso. Todo mundo sabe que essa música foi 100% composta pelo Paul para o filho do  John, Jules - apesar de contar com Lennon nos créditos, como todas as canções dos Beatles. O que alguns não sabem é que Paul era muito próximo do menino e que John Lennon não foi nem um pouco legal com sua primeira esposa e seu primeiro filho: Cynthia e Jules. Quando o menino tinha 5 anos, ele se divorciou de Cynthia para ficar com a Yoko Ono, que era quem ele realmente amava. Acontece que a Cynthia era a namoradinha do John desde o fim dos anos 50, quando os Beatles ainda eram "zé ninguéns" em Liverpool. Ele já tinha se afastado da moça quando foi pra Hamburgo e, com a fama e o crescimento da banda, se afastou ainda mais. O relacionamento deles era marcado por maus tratos, brigas e descasos. Pelo que dizem, John só se casou com ela porque ela engravidou. Bafão. Aí imagina como era difícil pro Jules, que era só uma criança e não tinha culpa de nada. Por isso o Paul ficou com pena e fez essa canção pra animar o garoto. Claro que ele só ia entender tudo muitos anos depois, quando crescesse.

Paul e Jules, o primeiro filho de John Lennon
9) When I'm 64 - Sargent Pepper's Lonely Hearts Club Band - 1967
Foi o paul quem criou essa música. Ele começou a escrever quando era adolescente, para o pai. Depois resgatou a canção e a transformou no clássico que conhecemos. A letra é genial. Gosto da sonoridade antiga meio anos 20 com clarinete e oboé, também. E é muito bacana ter sido uma música resgatada, que ele escreveu quando tinha só uns 15 anos.

10) Dance Tonight - Memory Almost Full - 2007
Eu adoro o clipe dessa música. É tão, mas tão inglês! E tem a Natalie Portman. Gosto da historinha que o vídeo conta. De tanto gostar do clipe, a música acabou me ganhando. Ela é suave e muito feliz. Não acho que empolgue a gente a dançar, como o nome e a letra sugerem, mas ela alegra e acalma. Li um texto do próprio Wilson comentando a discografia do Paul e diz que essa música ele fez pra sua filha caçula, que gostava de dançar quando ele tocava mandolim - o instrumento que aparece no clipe, com uma cena muito engraçada do Paul recebendo um carteiro; e que é o principal som nessa canção. Gosto muito dos assovios, também.

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