segunda-feira, 12 de março de 2012

Quem tem medo de crianças brasileiras?

Depois de a gente ficar completamente embasbacado com o power trio de menininhos japoneses que tocavam Clash e outros clássicos do rock melhor do que muito marmanjo, me aparece mais uma bela surpresa: o RevoltzSP! Os integrantes desse quarteto de Americana (interior de São Paulo), apesar da pouca idade, já não são mais criancinhas. Mesmo assim, causam espanto e admiração pelo repertório e pela postura punk que adotam. No fim de 2011, eles participaram de um programa de TV local (o Todo Som, do canal regional Todo Dia) e chamaram muito a atenção tocando antigas cançõs de bandas punks brasileiras dos anos 80 e, principalmente, com uma homenagem ao Redson, líder da banda Cólera, que faleceu em setembro depois de tocar ininterruptamente desde 1979. O Cólera foi um dos pioneiros do movimento punk no Brasil, banda muito importante na consolidação de uma cena de música independente no país.

O RevoltzSP toca também clássicos do rock, como Beatles, Ramones e Pixies, além de músicas próprias, como essa aqui (sente o drama):



Eles tocam bem de verdade, têm uma boa presença de palco, não fazem pose e, sério, se liga nesse baterista! Pra mim é o que mais chama atenção dos quatro. Isso sem contar o fato de ter uma garota na banda e de os dois irmãos (o batera e o vocalista) serem a cara do Cedric Bixler-Zavala, do Mars Volta e At the Drive In (olha o black power treta). Muito amor. Voltei a ter fé na humanidade e conversei com o Tiago, o vocalista e guitarrista, que foi super simpático e me contou um pouco mais sobre a história do RevoltzSP:

Quantos anos têm os integrantes da banda? O baterista é seu irmão?
Eu tenho 15 anos e a banda é formada por mim, meu irmão Gabriel (bateria - 12 anos), minha prima Julia (baixo e vocal - 13 anos) e meu primo Willian (guitarra - 13 anos). Quando a gente começou a banda, tínhamos de 8 a 11 anos. Mas só começamos a fazer shows no final de 2010. Antes disso, só nos apresentávamos para familiares. Agora, temos até uma resenha no Zona Punk [site tradicional de música alternativa e da cena punk e hardcore, que elogiou MUITO os garotos].


Vocês tocam músicas próprias?
Nós decidimos trabalhar com covers, pois sabíamos que as portas abririam mais facilmente. Daí, depois de atingir um certo público, colocaríamos o nosso trabalho na internet também. Não sabemos se esse é o caminho certo, mas foi assim que escolhemos fazer e acabamos ficando com pouco tempo para nossas próprias composições. Mesmo assim, no ano passado a gente gravou uma música própria com a ajuda de amigos. Foi assim o projeto: eles pediram uma música específica pra um trabalho deles da faculdade, explicaram o tema pra gente e então fizemos esse som, "Metrópole" [Confira o clipe gravado no vão do MASP, em São Paulo].

Como está a agenda de shows de vocês?
Eles acontecem esporadicamente; e aí a gente não conseguiu fazer uma agenda de shows ainda. Quando aparece algum, a gente vai!

O que os pais de vocês acham da banda?
O apoio deles é total, acompanham a gente em todo show, incentivam quando a gente recebe críticas. Sem o apoio deles, nada seria possível.

Como é ter uma banda em família, com o irmão e os primos? Vocês brigam muito?
É bem louco, briga é o que mais acontece, mas cinco minutos depois já ta tudo resolvido. Também tem o lance de ter uma menina na banda, o que é legal. E com ela a gente aprendeu que tem que esperar e ter um time diferente.

Quais são as influências de vocês? É raro ver pessoas tão novas curtindo de verdade o punk brasileiro dos anos 80; e a maioria dos covers que vocês fazem são de bandas dessa época. De onde veio essa referência?
Nossos pais viveram suas juventudes nos anos 80, até fizeram parte do movimento; e aí crescemos escutando esse tipo de música. Desde os meus 8 anos a gente pensava em ter banda, já tínhamos uma banda imaginária. A gente batia latas, subia no telhado para fazer shows imaginários. E, quando começamos a fazer shows de verdade, conhecemos algumas bandas da nossa cidade, como Maguerbes, Prole e Ow Shit, que nos mostraram esse lado DIY ["Do It Yourself", ou "Faça Você Mesmo", uma das principais ideias do movimento Punk]. Nosso repertório, quando começamos, era montado por Cólera, Replicantes e Mercenárias; e a gente tocava porque curtia essas músicas, são dos nossos gostos. Daí, quando o Redson morreu, fizemos essa homenagem pra ele. Temos consciência de que o movimento começado pelo Redson tem muito valor e teve seu tempo na história; mas não podemos deixar que isso vire um estigma para nós, pois hoje são outros tempos. Nosso tempo é uma fusão desse tempo [do Redson] com o tempo atual.





O que vocês pensam sobre o movimento e a cena punk?
Sobre a cena punk: não temos muito a dizer, tenho a falar da cena DIY, porque pra mim o Punk é um movimento onde cada um faz o que quer fazer do seu entendimento. Então nós não levamos esse papo de punk como bandeira, e talvez seja difícil entender isso, mas não damos tanto valor a nomes e rótulos. Damos valor às músicas, ao que elas falam. E é isso, porque se você se apegar a um nome você pode ser traído; mas se for se apegar à uma música, não. Uma música vai ser sempre uma música, por isso não interessa se ela é do Nirvana, do Frank Sinatra, do Roberto Carlos ou do Rogério Skylab. Resumindo: o que interessa é a música e o sentimento que ela transmite, aí sim vale a pena. Uma hora a gente vai fazer um som alegre, outra hora um de reflexão, que também é necessário.

Como vocês aprenderam a tocar?
As latas e os sons imaginários aprendemos sozinhos, mas quando tivemos o real interesse nossos pais nos deram os primeiros toques no violão. Aí fomos estudar para ter conhecimento, mas a internet nos ajudou muito.

Por que quiseram formar uma banda?
A gente resolveu, pô, é difícil responder essa pergunta...mas vamos lá! Acho que, no fundo, o que a gente quer é levar sentimentos às pessoas. E tem sido isso que faz a gente prosseguir, pois em um palco, quando o seu trabalho é reconhecido, é muito gratificante. Vale muito mais que cachê e essas coisas. Então é isso, independente de qualquer coisa, acho que a gente vai prosseguir fazendo shows por aí, ou postando um vídeo na internet. Acho que é isso.

E aí, já virou fã deles? Tomara que façam um show aqui em São Paulo logo!

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