segunda-feira, 6 de junho de 2011

Domingo no parque: Blood Red Shoes, Miles Kane e Gang of Four


Hoje faz uma semana que eu vi os melhores shows do ano até agora: as atrações do "música no parque", parte do 15º Festival da Cultura Inglesa, realizado no Parque da Independência, em São Paulo. E foi um verdadeiro exemplo de como os bons shows deveriam ser. Toma essa, SWU e Rock in Rio! Quem me dera os organizadores tirassem uma lição disso.

O festival é inteiro gratuito e tem um monte de atrações, de teatro a cinema e shows, e continua rolando até o dia 12 de junho. Tem até uma promoção no meio que dá uma viagem pra Londres. Se eu fosse você eu aproveitava, sério mesmo. Mas, voltando aos shows...desde as 11 da manhã, tocaram 3 bandas vencedoras do festival de bandas de alunos da Cultura Inglesa, seguidos pelos gaúchos da Cachorro Grande tocando só The Who e os Mockers, que também fazem parte do Cidadão Instigado, tocando só Beatles. Perdi todos esses shows porque fiz uma festança de arromba em casa no sábado e não aguentei acordar cedo (espero que a minha mãe não leia isso). Quando cheguei no parque da Independência, faltava pouco para começar o show dos Blood Red Shoes.
Aí começa o "festival exemplo" parte 1. Fui de metrô de boa pro parque, o que conta muitos pontos pra organização, por realizar o evento em um local realmente acessível. Era tranquilo ir de metrô, de ônibus e de carro. E era domingo, não tinha trânsito. Exemplo parte 2: OS SHOWS ERAM DE GRAÇA. Totalmente grátis. 5 boas bandas nacionais, mais 3 inglesas consagradas, que fazem shows em todos os festivais gigantes mundo afora, sem gastar um tostãozinho. LINDO! Mais uns 34067726514874 pontos pra eles!

Parte 3: cheguei em cima da hora pro primeiro show gringo e o parque já enchia bem, mas mesmo assim não tinha tumulto nenhum, as pessoas circulavam felizes e sorridentes embaixo do sol acolhedor daquele domingo frio, nenhum empurra-empurra, nenhuma bagunça, mesmo que todos que entrassem no espaço dos shows (montaram uma boa estrutura) tivesse de ser revistado. Mais uns mil pontos! Pra vocês terem uma ideia, nem o festival mais bem organizado de São Paulo hoje na minha opinião, o Planeta Terra, conseguiu a façanha de fazer a entrada ser tão tranquila e rápida assim. Consegui ficar na grade sem empurrar ninguém, sem ser encoxada, sem complicação alguma. Belezura!!!
Festival exemplo parte 4: a lindeza dos shows. Acho ridículo escrever "pontualidade britânica" nesse texto, mas foi isso que tivemos. Todos os shows seguiram rigorosamente o programa e o festival acabou cedo. Mesmo com o Gang of Four fazendo duas vezes o bis, às nove da noite eu já estava no metrô a caminho de casa. Mais pontos pra organização: pontualidade em festival é infelizmente uma coisa raríssima de acontecer e, com show acabando cedo, todos podem usar o transporte público também na volta.

Blood Red Shoes
Quando eu cheguei na grade, sem conseguir acreditar na minha sorte, já estavam em cima do palco o Steven Ansell e a Laura Mary Carter, que formam o genial dueto Blood Red Shoes. Estavam passando o som na caruda, sorrindo pra simpática platéia de jovens hipsters felizes. Era um clima feliz demais, com o sol, todo mundo dando risada, tava quase hippie o negócio. Dali a uns 15 minutos começou o show de verdade. E, cara, que coisa absurda. A graça dos Blood Red Shoes é que você jamais desconfiaria se tratar de uma dupla de "um menino que toca bateria e canta" e "uma menina que toca guitarra e canta" se não os tivesse visto. Porque o som deles é tão cheio, alto e intenso que parece uma banda de rock completinha. Eles não gostam de ser chamados de "White Stripes às avessas", e têm razão. Primeiro porque o Steven toca MUITO, animalmente, com umas viradinhas muito treta, ao mesmo tempo em que canta a plenos pulmões sem perder o tempo nem uma mísera vez, sem perder o tom, sem desafinar. Ele é do tipo que se mata no palco, conversa bastante com a plateia, faz graça. Muito diferente da Meg White, a baterista dos White Stripes. Eu gosto muito dela e fico puta quando dizem que a Meg não sabe tocar bateria. Mas, sem subestimar, ela realmente tem um estilo bem paradão, quase nunca fala ou canta e não toca nada elaborado. Sem contar que usa uma bateria de criança, menorzinha.

Da mesma forma que a Laura não tem nada a ver com o Jack White, um dos guitar heros da minha geração - por mérito, diga-se. A Laura é mesmo linda e toca bem de verdade. Por mais que algumas músicas do Blood Red Shoes sejam mais simples, a garota alia técnica e criatividade e não erra nada no palco. Mas ela é bem mais tímida e quietinha, apesar de mesmo assim interagir bastante com o Steven e com o público e abrir grandes sorrisos o tempo todo. Também canta muitíssimo bem, apesar de ao vivo ter mostrado um vocal um pouquinho mais fraco do que nos álbuns.

Além do show excelente, os Blood Red Shoes conquistaram ainda mais o meu respeito pelo seu comportamento. Primeiro, o Steven comentou o que, pra mim, foi o único defeito do festival da Cultura Inglesa: a famigerada área vip na frente do palco. Ok, people, era show grátis e vocês até podem argumentar que já estou pedindo demais, mas colocar o cercadinho bem na frente do palco e deixar os fãs mais loucos e apaixonados (que são os responsáveis por boa parte do sucesso de um show) tão distantes é mesmo MUITA sacanagem! Pra piorar a situação, durante a apresentação da dupla as cadeirinhas de madeira da área reservada (tinha umas 6 fileiras!) estavam vazias. Foi muito ridículo. O auge da situação patética da maldita pista vip foi quando, no meio do show, aparece o Supla, fazendo várias cabecinhas hipsters desviarem a atenção do palco. O cara sentou totalmente apático em uma das cadeiras e parecia estar dormindo, de tão entediado. Isso enquanto uma cambada de fãs pulava e berrava desesperada atrás dele, querendo ver melhor o show. MUITA SACANAGEM mesmo, amigos.

E foi aí que o Steven pediu pros fãs invadirem a pista vip. Falando muito sério. Ele reclamou das "stupid fucking chairs" e disse que era pra pular e dar uma de louco mesmo, que a grade era baixa, que tava facinho, e que seria muito mais legal ver as pessoas do que as cadeiras. Os seguranças demoraram um pouco pra entender do que o gringo tava falando, mas logo rolou uma tensão do lado de dentro da grade. Mesmo assim, talvez por conta de toda aquela organização e pontualidade perfeitas e shows de graça, as pessoas deram risinhos nervosos e concordaram, mas ninguém invadiu.
No fim do show, mais uma amostra de como os Blood Red Shoes são muito respeitáveis: eles disseram que queriam conhecer os fãs e que iam "dar uma circulada por aí" pra "bater um papo com a galera" e "tentar vender uns discos e umas camisetas da banda, apesar de a organização do festival ter proibido esse tipo de coisa". E foram mesmo, cara! Entre os shows do Miles Kane e do Gang of Four, anunciaram no palco que era só fazer fila no canto direito pra poder falar com os caras. Eu, groupie sem vergonha que sou, fui nessa. Tava meio embolado, mas TODOS que quiseram conseguiram falar com a Laura e o Steven, que na maior paciência atendiam cada um, tiravam fotos, davam autógrafos, sorrindo sem parar - mas sem esconder um certo nervosismo. Eu perguntei pra Laura por que ela parecia tão chocada. E ela disse: "nossa, isso aqui tá completamente maluco, o Steven e eu jamais imaginamos que seríamos tão conhecidos aqui no Brasil. Mas as pessoas cantaram todas as nossas músicas no show e agora veio um monte de pessoas pra falar com a gente, meninas gritando, dizendo que nos amam. Acho que a gente vai ter que voltar pra cá logo!". A Laura é tão legal que, quando eu contei que também tocava guitarra e que ela era uma inspiração pra mim, ela ficou toda emocionada e me perguntou um monte de coisas sobre o que eu gostava de ouvir e tocar, que modelos de guitarra eu tinha e o escambau. Cara, pensa! A Laura Carter tem um monte de Fenders, toca melhor que um monte de marmanjo que eu conheço, conhece o Dave Grohl e o Jimi Page e ficou conversando comigo sem pressa interessada nas minhas guitarras. Eu nem acreditei!

Depois fui falar com o Steven, que estava muito agitado e feliz e disse que os paulistanos eram os fãs mais loucos que já tinha visto na vida. Horas depois, comentou no twitter que São Paulo tinha feito ele se sentir como se fosse o John Lennon por um dia e que estava muito triste por ter que ir embora do Brasil. Steven e Laura continuaram no canto direito do palco vendo os outros shows e pareciam muito interessados na apresentação do Gang of Four. Tornei a falar com eles na saída do festival e o Steven comentou que era muito fã dos caras e que estava muito impressionado com o show deles, porque a banda não perdeu o vigor e a intensidade mesmo depois de mais de 30 anos de estrada. Concordo.


Água grátis (no SWU, uma garrafinha de 300ml custava 6 reais!!!)
Logo antes de começar o show do Miles Kane, que se apresentou com seu projeto solo e uma excelente banda de apoio, mais uma surpresa somou muitos pontos pra organização do festival: a única coisa que me incomodou além da pista vip foi ter sido obrigada pela segurança a jogar fora minha garrafinha de água na entrada do parque. A essa altura eu já tinha bastante sede e não via ninguém vendendo nada lá dentro. Foi aí que me apareceu um homem carregando uma espécie de mochila bem esquisita, que parecia aquelas bolsas de entregador de pizza. Saía uma mangueirinha de um lado dela e, do outro, tinham vários copos plásticos empilhados. O cara me viu e disse "quer água, moça?". Claro que eu queria. E aí ele me diz "pega aí um copo que já vou encher pra você, é de graça, pode pegar". NOSSA, que incrível! Nunca vi um festival fazer isso, nem em pista vip 3 vezes mais cara, e olha sou a maior rata de show que conheço. Água grátis sendo distribuída sem bagunça para todos. Você guardava o copo e, quando o cara passava de novo, enchia mais uma vez se quisesse. Demais!

Miles Kane
Aí anunciaram o Miles Kane, pra delírio absoluto das groupies e da galera hipster moderninha que usava xadrez, colete, rayban e terninho. Fazia tempo que eu não via meninas gritando tanto. Começou a tocar uma música muito pomposa e alta, que durou tempo demais, na minha opinião, e quando começou a cansar chegam os caras. A banda parecia um tanto tímida, mas não o Miles. Ele chegou numa pose tal que, assumo, não fui muito com a cara dele no começo. Parecia super metido, só faltava cantar "sou foda, dig din dig din". E, pra coroar, começou a cantar com o microfone muito alto, olhando pra cima, IGUALZINHO o Liam Gallagher. Pra nossa sorte, a pose foi caindo aos poucos e logo o Miles já estava abrindo grandes sorrisos, conversando simpático com as groupies insandecidas e agradecendo educadamente. Mas a semelhança não é mera coincidência, nesse caso. Acontece que o Liam Gallagher é fã do Miles, assim como o Miles certamente é muito fã do cara também. O Liam, que agora depois do fim do Oasis formou a Beady Eye (banda confirmada pro Planeta Terra 2011, hein), convidou o Miles Kane pra abrir seus shows e elogiou publicamente seu trabalho solo. Como se isso não bastasse, o irmão "quase gêmeo" do Liam Gallagher, o Noel, também é fã declarado do Miles, tocou gaita em uma das faixas do disco de estréia solo dele (na My Fantasy) e convidou o garoto pra tocar guitarra no seu próprio disco solo, que já está sendo gravado e deve sair até o fim do ano (provavelmente em uma bela batalha de egos com a banda nova do irmão).


O Miles Kane tocava guitarra e cantava no Rascals, uma banda muito boa de "indie britpop", e depois fez uma dupla com ninguém menos que Alex Turner, dos Arctic Monkeys, chamada The Last Shadow Puppets. Tudo isso passou bastante na MTV, você deve conhecer. A voz do Miles é assombrosamente parecida com a voz do Alex Turner e o estilo dos dois também combina, apesar de o trabalho solo do Miles ter uma pegada bem mais pop e sessentista do que as músicas atuais dos macacos árticos. Desfeita a pose metida, o show do Miles Kane foi delicioso e empolgante. Era impossível não querer pular, dançar e cantar junto todas as músicas, que ao vivo são bem mais legais do que no disco.
A catarse coletiva ficou por conta de "Inhaler", uma faixa mais pesada com um riff hipnotizante e gritinhos "yeah yeah yeah". Come Closer (com todo mundo berrando o "aaaaah, oooh, aaah, oooh"), Rearrange e King Crawler (com um baixo pulsante animal que faz qualquer um querer dançar piriguetemente, que nem o Mick Jagger, cantando o "ai ai ai ai ai ai ai aaaai") também foram incríveis. Esses dias descobri um cover genial que o Miles fez pra "A girl like you", música sensacional do Edwyn Collins. Não tocou no show, mas eu super recomendo. Fora a excelente apresentação, o Miles Kane também conversou com muitos fãs antes e depois dos shows, deixando de lado a pose "Oasis" (ainda bem!!!). Espero que o tragam de volta pro Brasil logo!

Gang of Four
Final apoteótico do festival. Entra sem rodeio nenhum o Gang of Four, com os dois integrantes da formação original (Jon King e Andy Gill) beirando os 60 anos de idade, mas com uma presença de palco exemplar de fazer inveja pra qualquer adolescente rockstar de fim de semana. Eles são LOUCOS, insanos, a coisa mais punk sem precisar de pose nenhuma que existe. Tocaram todos os hits do "Entertainement!", o álbum mais conhecido (e mais legal) da banda, de 1979. Jon King, o vocalista, girava o microfone ameaçadoramente como se usasse um laço de cowboy num rodeio, quase arrancando o nariz dos seus companheiros de banda. Jogava pedestal no chão, pulava pra lá e pra cá, subia na bateria, subia no amplificador, ia até a beirinha do palco e quase se jogava, fazia careta pras pessoas na pista vip (que, pela primeira vez no dia, encheu razoavelmente), abria a camisa, se jogava no chão e se arrastava que nem a Juliette Lewis loucona. E eu que achava que o Paul McCartney é que estava em excelente forma de shows. Ha!

Andy Gill, que também canta e toca guitarra, estava só um pouco mais comportado. Dava uns pulos com a guitarra tão perto do pescoço dos outros integrantes que doía só de pensar na possível pancada. A uma certa altura parecia que ia destruir a guitarra no palco, batendo-a com violência no ritmo da música (!), mas impressionantemente o instrumento saiu ileso e voltou a ser tocado de forma convencional. O baixista Thomas McNiece, que balançava seus dreadlocks sorrindo no palco, os acompanha desde 2008 substituindo Dave Allen e também é um monstro. O baixo é o instrumento principal do Gang of Four desde o início da banda, no fim dos anos 70. Aparece pesado que nem dub, mais alto que todos os outros sons, faz você tremer inteiro e não conseguir acompanhar as batidas do próprio coração. Na bateria, o mais quietinho dos quatro, Mark Heaney, também tocava pesado sem dó, substituindo Hugo Burnham, da formação original, que largou a banda para se dedicar a uma bem sucedida carreira acadêmica nos EUA (!).Todos tocam forte, com uma pegada tensa, apesar de o som ter uma levada jamaicana com muito pulso que acaba fazendo as músicas ondularem, fazendo-se dançantes.

Voltaram pro bis duas vezes, quebraram um microondas no palco (!!!) - o Jon King batia nele com um bastão de beisebol segurando um tempo certinho, super preciso, como se fosse uma espécia de percussão bizarra - , zoaram todos os microfones de tanto os tacarem no chão, fizeram a plateia se esquentar de tanto pular e gritar. Nessa hora, a plateia mudou. Os muitos hipsters e adolescentes deram espaço pra pessoas mais velhas, um monte de tiozinhos e também gente vestida de forma mais comum e sem graça. Mas todos cantavam todas as músicas e, por incrível que pareça, os gritos durante o show do Gang of Four conseguiram superar os berros estridentes das menininhas tietes do Miles Kane! E tocaram, pra fechar a noite, uma das minhas músicas preferidas de todos os tempos: Damage Goods, também do álbum Entertainment!.


Fui pra casa exausta, rouca de tanto gritar, mas imensamente feliz e satisfeita. Não conseguia parar de sorrir e comentar os shows e a organização surpreendente. E pensar que já paguei muito caro pra ver shows bem piores.

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