terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Pingando vinagre nas feridas

Ontem a banda paulistana Jennifer Lo-Fi lançou seu terceiro EP, produzido por Chuck Hipolitho. Noia é o primeiro trabalho da banda a ser lançado pelo Vigilante, selo alternativo da gravadora Deck Disk.



As novas canções, gravadas e mixadas em São Paulo no Estúdio Costella (que pertence a Chuck), são como um desenvolvimento do rumo traçado pelo último EP da banda, Summer Session, indicando maturidade e foco em um som original e mais limpo em meio a toda a influência do post rock. A Jennifer Lo-Fi segue em um caminho certo, mostrando uma qualidade musical que cresce exponencialmente a cada gravação. No novo EP, a banda preservou sua identidade sonora, trazendo, entretanto, algumas mudanças estéticas sutis com a produção de Chuck Hipolitho e a direção artística de Manoel Brasil. O som aparece muito limpo, com cada instrumento perfeitamente perceptível e equalizado nas músicas criativas da banda, que continuam com deliciosos imprevistos, quebrando bruscamente de um andamento para outro – bem ao estilo “lo-fi” a que se propõem.

William Pereira Couto, que integrou a Jennifer Lo-Fi há menos de um ano, participou pela primeira vez de gravações com o grupo e já imprimiu personalidade ao baixo, que aparece em maior evidência em todas as músicas do novo EP. Os vocais de Sabine Holler também trazem uma personalidade ainda mais forte. É impressionante como a jovem cantora controla sua voz, interpretando cada verso das canções como se atuasse, com muita profundidade emocional. Ela continua indo, sem esforço, de um sussurro sensual e rouco a um grito arrepiante, de uma melodia aguda e suave a uma frase mais forte e grave, com maior segurança. Caio Freitas e Luccas Vilella continuam demonstrando grande habilidade nas guitarras e na bateria, respectivamente, dando andamento à identidade sonora encontrada no último trabalho de estúdio da banda, com sons delirantes e, agora, mais harmônicos e entrosados.

Troffea, Neveo, Ovos e Bacon, as quatro faixas de Noia, trazem todas as letras em português, com destaque para “Troffea”, inspirada por um curioso caso de “histeria coletiva” (expressão que também dá nome a uma música mais antiga da banda) que aconteceu na França do século XVI, quando uma mulher (conhecida como Frau Troffea) começou a dançar inexplicavelmente, fazendo com que outras pessoas a seguissem e freneticamente se movimentassem sem conseguir parar por dias. Todos morreram por complicações ligadas à exaustão. As outras três letras de Noia trazem uma sensação de pingar vinagre nas feridas, de desabafo depois de um período sufocante de mágoa, ansiedade, angústia. Como uma libertação violenta, uma redenção, exorcizando perdas e amores, em versos como “porque pensei por três: mim, mim e mim”, “só você arde assim” e “já tivemos sorte em acontecer” (meu verso preferido de todos que a banda já escreveu).

A arte do EP, calcada em psicodelia e em um clima soturno no deserto, foi produzida por Bruno Cironak, designer responsável pela arte gráfica da Medulla, banda carioca liderada pelos gêmeos Keops e Raoni que foi revelação no Festival Abril Pro Rock de 2006 e é parceira da Jennifer Lo-Fi.

O novo EP Noia pode ser baixado tendo o seu download pago por um twit. Ou seja: ao divulgar o novo trabalho da banda no Twitter, tem-se o direito de baixar as quatro novas músicas, sem precisar pagar efetivamente por elas. Confira: http://www.semprevigilante.com.br/home/jennifer-lo-fi-noia/

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