segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Macaco Bong + 6 convidados + palco invadido = um dos shows mais lindos que já vi

Macaco Bong: power trio (tem que amar) de Cuiabá que toca rock instrumental e é obrigatório para qualquer interessado em boa música contemporânea, composto por Ney Hugo no baixo, Ynaiã Bentrholdro na bateria e Bruno Kayapy na guitarra. Ontem, a banda tocou no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, com seis convidados muito especiais: a começar por Vitor Araújo, para quem o adjetivo “prodígio” já é pouco. Ele é de Recife, tem uns 20 anos e abriu o show com um piano de cauda matador, que fez toda a plateia prender a respiração, até que os integrantes da banda entrassem no palco. Vitor também tocou escaleta e metalofone durante toda a apresentação e parecia sofrer ataques epiléticos dignos de Ian Curtis quando se empolgava tocando, forte, vigoroso, pulando: entra debaixo da tampa do piano e toca as cordas lá dentro, como se mergulhasse ou fosse engolido pelo instrumento, balança a cabeça como se estivesse num show do Rage Against the Machine e consegue, depois de tudo isso, voltar a uma melodia suave e etérea. O menino é novo e pequenininho, mas no palco sabe se transformar em gigante, imprimindo uma forte identidade em cada música tocada e preenchendo o som já bem rico e redondinho do Macaco Bong.

O segundo convidado a aparecer foi Jack, percussionista da banda mineira Porcas Borboletas, que também acompanhou o show todo com suas batucadas e uma performance absurdamente hipnotizante. Era como se todo o The Who, no seu auge, encarnasse em um homem só e explodisse em riso, em ritmo, em pulso, em um gingado contagiante que levantaria até defunto e na destruição de instrumentos no palco sem nunca perder o tempo das músicas (!). Jack, eletrizante, pulava, cantava, gritava, corria pelo palco inteiro, invadia a plateia, dava estrela e cambalhota, jogava latas ameaçadoramente para cima da própria cabeça. “Solou” batendo com um teclado de computador em uma timba na frente de todo mundo e fazendo voar pecinha pra todo lado...só vendo pra crer. Roubou a cena muitas vezes. Um puta artista.
Até aí, o show parecia um repeteco das duas lendárias apresentações que a banda fez há quase exatamente um ano, quando abriram a programação de 2010 do Auditório do Ibirapuera com os mesmos convidados iniciais para gravar um DVD e um CD ao vivo baseados no repertório do álbum “Artista Igual Pedreiro”, lançado em 2008. O projeto dos convidados deu tão certo que, depois de excursionar pelo Brasil todo e em países como Canadá, Argentina e Espanha, tocar com o Gilberto Gil e causar no festival SWU, o trio voltou pro mesmo palco com um time ainda mais forte de apoio.
O terceiro convidado da noite foi o também recifense Siba Veloso, com sua rabeca envenenada, carregando o tempero original do Brasil que ele inventou como um dos criadores do Mestre Ambrósio e que, hoje, soa bonito quando se apresenta com sua banda Fuloresta, trazendo as raízes musicais nordestinas para a música moderna. Em seguida, uma surpresa: entra Guizado, trompetista talentoso que tocou com gente de peso como a musa Céu e lançou há pouco tempo o disco “Calavera”. Sua participação não tinha sido anunciada na divulgação do show, mas arrancou sorrisos, uivos, palmas e assovios gerais.
Os dois últimos convidados foram o rapper paulistano da gema Emicida e seu fiel escudeiro DJ Nyack, que já podia ser visto no meio do palco, antes de o show começar, mandando quietinho uns grooves deliciosos. Nyack tocou em várias músicas do Macaco Bong, enquanto Emicida cantou apenas duas músicas próprias acompanhado pela banda e por todos os demais convidados em uma participação curta, porém apoteótica, com uma presença de palco imbatível. Os muitos fãs de carteirinha do rapper presentes na plateia, vestindo orgulhosamente camisetas do Laboratório Fantasma (QG de Emicida) e fazendo o “N” do bordão “A rua é nóiz” com as mãos, foram ao delírio com sua chegada, tentando cantar todas as rimas junto e fazendo ainda mais barulho. Emicida foi o artista que mais interagiu com o público, com articulação e desenvoltura impecáveis, quebrando o gelo da seriedade e da timidez impostas ao público, segundo ele mesmo, pelo imponente auditório e suas “cadeirinhas”, além de fazer comentários divertidos e grandes elogios sobre os músicos. “Nossa mano, tá cheio dos baguio aqui, hein...acho que o Jack já solou!”, disse ele sorrindo em tom de deboche, enquanto afastava com o pé os restos mortais do teclado destruído minutos atrás, arrancando risadas da plateia.
Mas o verdadeiro destaque da noite foi guardado para o final: depois de se soltar de vez com a participação do Emicida e aplaudir de pé, implorando pelo bis, o público avançou e cercou toda a frente do palco enquanto os músicos retornavam e, algum tempo depois de a canção “Vamos dar mais uma” (belo nome pra uma música, não?) voltar a ser tocada em êxtase, com todas as pessoas já sorrindo de orelha a orelha, dançando, cantando, pulando e berrando, instaurou-se um carnaval que culminou com a invasão do palco pela plateia, aprovada pelos músicos, que incentivaram a louca participação do público e se juntaram a eles, sem parar de tocar, em uma verdadeira “catarse coletiva”. Eu juro que vi gente ali chorar de emoção. Confira você mesmo:


Bruno, Ynaiã e Ney se consolidam finalmente como peças essenciais da música brasileira e, agora, residem em São Paulo para dar início a uma temporada no Studio SP, com shows mensais às quintas-feiras. Paralelamente, já preparam o segundo álbum da banda. Para os infelizes que perderam o show memorável de ontem, recomendo que fiquem muito atentos às datas do Macaco Bong na Augusta.

7 comentários:

  1. Melhor show da minha vida, sem comparação, nunca senti a energia de uma banda tão bem como sinto quando vou a algum show do macaco bong, sendo subindo no palco ou o Bruno se jogando na galera, como na virada cultural de 2009, minhas pernas sempre tremem e meu coração dispara em cada show, sempre perfeito.
    Quem perdeu, nunca saberá o que é essa sensação.

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  2. muito bom o texto, obrigado pelas palavras. Vi na bio que vc tem interesse de mais na comunicação alternativa, gostaria de ser colabora do fora do eixo?

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  3. Thami, muito obrigada por ler meu blog! Eu me senti exatamente assim como vc descreveu! Esses shows são de lavar a alma, fazem a gente se sentir vivo.

    E Ney, muito obrigada pelo elogio! Fico feliz por isso =) Eu adoraria colaborar pro Fora do Eixo, sim! Voce pode me mandar seu email?

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  4. tou acompanhando a banda em São Paulo desde a virada cultural de 2009, e não me arrependo. cheguei até a aparecer na matéria da Trama dessa virada cultural ae. fui o cara que 'cantou' a música.
    ótimos shows, interação mil e sempre me recebem bem. não tem porque eu faltar nos shows, a não ser o fato da grana que me faz dever as vezes. mas sempre que posso, compareço.

    esse eu nem ia, ainda mais porque não sou lá tão chegado assim no Emicida. mas acabou que fui porque queria ver essa parceria no que ia dar. não me arrependi, foi maravilhoso. parabenizo vocês pelo show (e vocês do blog) e espero que essas parcerias continuem acontecendo, e que os meus palpites sejam ouvidos MAEIOHEHAIO

    valeu, até mais.

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  5. Grande texto.

    sempre bom saber que nossa musica motivas as pessoas a fazerem coisas boas.

    Ficamos felizes.

    ;)

    Seja sempre nossa convidada ;)

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  6. Maravilhoso o seu texto. Você conseguiu descrever a emoção que sentimos naquele show, que pra mim foi o melhor de minha vida...
    Parabéns.

    ozielsouzza@gmail.com
    @ozi_souza

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